terça-feira, 28 de junho de 2011
FOME
sábado, 25 de junho de 2011
As Revoluções Nascem em Noites Estreladas
Eu sou aluna de design de moda. Antes disso, fui psicóloga e trabalhei em organizações não governamentais. Antes disso fui aluna voraz de literatura. E bem antes disso, quis ser astronauta e fotógrafa da National Geographic.
Na adolescência, minhas referências de moda eram revistas da década de 60 e 70, que pertenciam a minha mãe. Sentia que havia perdido uma profunda revolução cultural, a qual eu queria tanto ter presenciado.
Naturalmente, meus interesses se voltaram para esses movimentos de juventude, e no meio do caminho, topei com o Rock. Vou pular um capítulo grande dessa fase para falar especificamente sobre um livro que li sobre aqueles tempos de juventude gloriosa e desnorteada. Aqueles tempos loucos de hippies, descobertas e ousadias que não vemos acontecer hoje.
Ler aquela história pareceu-me surrealmente familiar. No entanto, por ter nascido no tempo e lugar errados, me tornei assombrada por imagens e sensações que nem de longe poderiam ser minhas. Como se algo devesse ter acontecido comigo, num outro tempo e lugar, e por alguma razão, não aconteceu.
Meu pai sempre me diz para me desconectar.
"Let it go", diz ele.
"Let it be", respondo eu
E me pergunto o que aconteceu com os jovens que estiveram lá, no tempo e lugar certos, convivendo com outros jovens que sonharam sonhos tão altos. O que aconteceu com eles? Onde eles estão?
Que tipo de sonhos eles têm agora?
Essa história, espero eu, não tem fim.
Essa revolução cultural será vivida novamente.
Ou alguém acredita ser impossível usar a globalização a favor de uma mentalidade?
Porque somos capazes de pôr nossas diferenças de lado e orar por povos tão diferentes quando eles têm suas vidas devastadas pela força da natureza? Porque choramos com eles? Porque nos importamos?
Uma nova revolução, mundialmente orquestrada, num coro muito mais consciente e presente, está pra nascer. Não vamos precisar de Timoty Larry.
Mas certamente, vamos precisar de um novo Jimmy.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
A Toca das Raposas
Onde a grama é verde e os garotos são bonitos
Não aqui
Aqui, jogar abertamente não agrada e nem é útil
Todos tentam ser indispensáveis,
Mas só sinto cheiro de tragédias
Talvez seja pra ser assim mesmo
E há quem não me siga por ser assim
Paciência
também não me impressiono com pouca coisa.
domingo, 10 de abril de 2011
"Falta-me testosterona" ou "Sou tão feminino que nem uma porra de um texto machista eu consigo fazer"
Ah, quantas coisas faria... Mas não, falta-me macheza.
Músculos.
A confiança na própria força.
Os cds do Mudhoney.
Mas como macho não sou, fico aqui, a ouvir melodias de mulherzinha. Canções em inglês, lamúrias muito bem elaboradas. E choro copiosamente, como uma dona de casa assistindo o último capítulo da novela. Qual a diferença? Nenhuma, meu amigo. Nenhuma...
Resta-me comer a minha própria vagina. Sou uma mina bem gostosinha. Tímida, reclusa...
Aceito tudo muito bem.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Isis, Apófis, Osíris
93
Entre o caos e a entropia, a paixão
Entre o estabelecimento e a conclusão, a coragem
Entre a emoção e a razão, o rigor
São esses os frutos da árvore: amor, sob vontade.
IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIAAAAAAAAAAAAAAAOOOOOOOOOOOO!!!
abraços e feliz 2011!
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Se había perdido en su propia oscuridad.
Ela havia se perdido na própria escuridão. Perdia-se todos os dias num mesmo grito.
Um dia acordou, com os cabelos desgrenhados, e encostou os pés no piso frio. Eram três da madrugada, e soprava um vento gelado entre as árvores que se insinuava pela branca e fina cortina do quarto. Era uma casa de campo grande, isolada do caos urbano, no topo de uma colina bem verde. Durante o dia, assumia uma aconchegante conformação bucólica, mas à noite era simplesmente lúgubre, mas o tom depressivo daquelas sombras a encantava , e à medida que o luar entrava pela janela ela se sentia mais viva.
Porém, naquela noite, não foi assim. Os pés caminharam sobre o piso frio até em frente ao espelho da parede oposta à cama. Ela mirou-se sob a luz do luar que iluminava seus contornos. Seus dois grandes olhos eram duas circunferências brancas em meio à escuridão do recinto. Piscou-os uma vez , e então percebeu com assombro: estava perdida. Absolutamente perdida. Isolada do mundo, excluída dos próprios pensamentos, ela sentia como se fosse um corpo vivo, mas que o coração estivesse trancafiado em alguma outra parte. Ela não se encontrava. Sentia-se como se houvesse penetrado em um perigoso labirinto que a aspirava para um universo cheio de dúvidas. Cheio de receios. Cheio de revoltas.
Repousou uma mão sobre o espelho e notou que o calor da mesma produziu um pequeno contorno de vapor sobre o vidro. Sim, estava viva. Sim. Ela sonhava , mas eram sonhos de asas cortadas, sangrantes. Procurava desesperadamente praias com sóis que nunca se punham, auroras eternas, procurava encontrar pássaros feridos e poder curá-los e soltá-los um dia perto do mar, sorrindo. Procurava sujar as unhas de terra em jardins cheios de flores, lamber dedos sujos de sorvete numa rua qualquer, sorrir sinceramente com alguém, brigar pelo último gole de refrigerante, gritar músicas cafonas dentro de um carro, acordar querendo ver o sol nascer no lugar mais distante e ir com alguém, e gritar com alguém, e festejar com alguém.
Procurava ter os pesadelos mais pueris e os desejos mais loucos de infância, sentir os ouvidos de alguém ouvindo seu coração bater, procurava crescer, procurava saber como era a ilusão das cores. Queria pintar um arco-íris nos olhos de alguém, sentir o suor dele como se fosse tinta, que pintasse seu corpo, que concordasse em ir junto com ela aos mais depravados destinos, onde junto seriam dois perdidos, dois loucos, duas serpentes, duas gotas de sangue, duas crianças. Sonhou com os mais tenebrosos amores e os mais encantadores medos. Queria alguém que a ajudasse a consertar suas bonecas quebradas. Queria alguém que pudesse enxergá-la bem dentro de sua pupila.
E enxergando as próprias meninas chorosas de seus olhos, ela percebeu. Não estava perdida porque não encontrava seu caminho. Mas porque não havia encontrado alguém corajoso o suficiente para percorrê-lo com ela. Se sentía perdida dentro de su propia oscuridad. Se sentía perdida, hasta que él llegó con la luz en la mano.
sábado, 7 de agosto de 2010
Agridoce.
- Oh, eu tenho medo...
- Eu também tenho medo. E é por isso que eu trouxe isso.
Ela começou a chorar de novo. Os dois se abraçaram na areia, enquanto os primeiros raios do sol despontavam no céu. Ele segurou os cabelos dela levemente, querendo prendê-la com ele para toda a eternidade. Entre sol, céu, sal e manga, eles eram duas crianças num verão que nunca acabou.
domingo, 25 de julho de 2010
Take 1
parei na frente da vitrine
para olhar um brinquedo
que não via há tempos
me sentia estranha
voando ao passado
como um pássaro
na contramão
mas o som da buzina afasta as sombras,
e mordo um chiclete inocente
vendo que nem tudo está perdido,
nem tudo é torpor e nostalgia
porque a cena acaba de ficar dourada
com ele me chamando, com voz de música folk
quando a noite cair
vamos subir no topo daquele prédio em construção
enquanto os outros dançam e acendem suas fogueiras
e vamos ficar lá, sentados, contra o vento
e eu vou saber, sem ouvir uma palavra
que eu sou seu reflexo nesse espelho torto
eu sou ele do avesso e sem conseguir explicar
ele me ama e muito
Corta.
terça-feira, 1 de junho de 2010
A pérfida arte da auto-sabotagem.

Não tenho, ultimamente, a menor inspiração para escrever qualquer texto narrativo ou com um pingo de tom poético. Forcei-me, alguns dias, a encontrar um tema que fosse de valia, mas todos só me traziam enfado. Não consegui, simplesmente, encontrar tema algum, e fiquei entediada.
Passaram-se os dias, andei refletindo sobre a constante cobrança que fazemos de nós mesmos, seja a respeito de coisas tão rotineiras como um texto de um blog, como em relação a eventos realmente importantes. O assunto murmurava em minha cabeça, mas sem alguma nitidez específica. Apenas sussurrando em algum canto.
Hoje, após assistir a Vicky Cristina Barcelona pela segunda vez, pude vê-lo com um olhar menos curioso e mais crítico, e enfim refletir sobre alguns temas que eu ainda não havia percebido que esse filme aborda. E aquele assunto que até então apenas cochichava em minha mente pode adquirir um timbre agora mais audível : tudo é a respeito da pérfida arte da auto-sabotagem.
Sim, pérfida. É a palavra perfeita. Se tiverem sugestões para alguma melhor, por favor, digam-me. Fico aterrorizada com a PÉRFIDA capacidade que temos de destruir nossa própria auto-estima e irritar a nós próprios com pequenas angústias todos os dias. Você sabe que é um grão-mestre da arte da auto-sabotagem quando a única pessoa que realmente consegue estragar o seu dia é você mesmo. E é o que todos nós fazemos, uma vez ou outra.
A auto-sabotagem se faz presente não apenas com as cobranças excessivas que fazemos em ser o mais rico,o mais bem sucedido, o mais culto, o mais sexy, o mais popular. Mas também porque simplesmente não percebemos que ser rico, bem sucedido, culto, sexy ou popular simplesmente não é, e nunca será, tudo na vida. A felicidade não reside nisso. Ela reside em algo que ninguém ainda soube, mas definitivamente, não em conquistas. Se conquistas construíssem felicidade, não veríamos tantos bem afortunados, belos, cultos e interessantes cometendo suicídio , usando drogas, reclamando de migalhas.
Pois bem, vamos ao filme. A maioria dos que assistem gostam muito de debater a respeito de Maria Elena ou Cristina, que são, para muitos, as personagens mais intrigantes da trama. À primeira vez que o vi, já não consegui ver realmente tanta cor na interação das duas, mas nessa segunda vez pude concluir realmente que a personagem que sela todo o filme, e que tem mais teor dramático é, sem dúvidas, Vicky. Vicky é a garota que sempre planejou sua vida para que esta fosse a mais perfeita possível, e ao ter encontrado o homem perfeito e a carreira perfeita, percebeu que enfim, tinha a vida dos sonhos. Porém, esse sonho se desestabilizou quando ela finalmente encontra Juan Antonio, o pintor boêmio, interessante, que tinha todo um novo mundo de possibilidades que ela, amante ferrenha das artes, estava louca para conhecer. A partir de então, ela passa a nutrir uma paixonite pueril por Juan Antonio, enquanto o noivo se esforça para agradá-la. (Aliás, Vicky sofre daquela tolice de achar que só porque alguém é atraente e tem o mesmo padrão cultural que você, essa pessoa já a sua alma gêmea. ) Quando ela enfim tenta passar uma tarde por Juan Antonio, num incidente desagradável que envolve Maria Elena tentando atirar nos dois, ela percebe a loucura que está fazendo. Entretanto, continua alimentando o assunto em sua memória.
Vicky é o símbolo da auto-sabotagem. Amarrou-se durante toda vida à obrigação de ter a vida perfeita, o homem ideal, a carreira fantástica. Mas Vicky, por ter tanta obsessão em ser mais feliz, foi a que mais sofreu ao conhecer Juan Antonio. Tudo porque o mundo artístico de Juan, e os clichês sedutores que ele dizia, pareciam ser para Vicky mais "felicidade" do que aquilo que ela estava vivendo no momento. De repente, aquela era a vida perfeita - a vida despreocupada, as tardes de verão em Barcelona, a liberdade cultural e comportamental européia. Vicky alimentava esses sonhos adolescentes enquanto seu noivo proporcionava-lhe afeto e uma vida confortável. Mas aquilo não era mais felicidade. Ela queria ter uma vida gritantemente deslumbrante. Como se isso, afinal, fosse necessário!
Qual o problema em não ser , realmente, a mais feliz das criaturas? Ter uma vida emocionante, cheia de aventuras e loucuras, dá um trabalho insuportável. Você precisa acordar todos os dias com idéias mirabolantes que dêem "todo um colorido" ao seu dia , ou então conhecer alguém interessante, comer um prato exótico, viajar a um lugar absurdo, pular de pára-quedas, transar com alguém estonteante e todas essas imagens que Kodak, Coca-Cola, Marie Claire e Playboy construíram para fazer com que você, um dia, queira se matar se jogando da ponte mais próxima. Imaginem o quão intragável deve ser conviver com alguém como Juan Antonio: você tem de ser a mulher fatal, a diva estonteante, a louca endiabrada, a poeta dos sonhos, gritar e ter crises intempestivas de humor, e estar sempre com uma idéia extravagante na cabeça, porque senão ele pode se entendiar. Isso, para mim, é tortura.
Admitir que é possível - e perfeitamente normal - não ter a vida mais extraordinária da Terra nos tira um grande peso da consciência. Quando você aceita que pode sim, reclamar da sua vida, e que seus dias podem sim, ser uma constante reticência com um ou outro ponto de exclamação, você pára de planejar eventos e festinhas insanas, cansa de idealizar e consegue, finalmente, desfrutar da calmaria que é ter uma vida NORMAL. Ninguém, absolutamente ninguém, tem a obrigação de ser incrivelmente feliz no mundo. Você pode acordar , colocar os pés nos seus chinelos, e murmurar um salutar "Que ódio que eu tenho dessa rotina" que está tudo bem. Ninguém vai te culpar por isso. Você não precisa se culpar por isso. Com exceção de situações realmente graves e extremas que você realmente precisa solucionar, o resto pode ser vivido de forma passiva e leve. Infelizmente, a sociedade, a cultura, a mídia e você mesmo exigem que você tenha uma vida incrível para ser incrível.
Não, não. Você pode ser incrível sendo você mesmo. Tomando aquela xícara de café meio frio enquanto assiste seriados antigos e manda às favas a ditadura da felicidade, você é a mais feliz das criaturas.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Sem palavras
segunda-feira, 22 de março de 2010
Les oiseaux ne sont pas des oiseaux.
Marie fumava seu melhor cigarro , sentada à mesa minúscula de um café igualmente diminuto de Montmartre. Observava o mercado de quadros e livros velhos que se estendiam por toda a calçada oposta. Uma criança indiana chorava violentamente, porque queria uma revista de Asterix, enquanto a mãe, provavelmente sem dinheiro suficiente para comprar criações de Uderzo e Goscinny, observava um jogo de xícaras com pires lascados na barraca ao lado, indiferente ao clamor do filho.Um cão que poderia ser confundido com um setter inglês tinha uma pata dianteira machucada e lambia a valeta da calçada , esperançoso que o cimento pudesse ser comestível. Marie riu, e ao mesmo tempo sentiu-se constrangida em ter capturado aquele momento de pura decadência daquele animal. Marie tinha a péssima mania de humanizar animais, principalmente cães e pássaros. Acreditava que eles também tinham planos e objetivos , e que seus sonhos caninos e orníticos pudessem ser frustrados tais como os de seus parentes humanos. O cão fixou seus olhos moles para ela, como se pudesse sentir que ela estava observando seu débil comportamento na calçada. Marie sentiu um golpe no estômago. Sentia-se um monstro por ter servido de platéia risonha para o triste espetáculo que o animal protagonizava.
- Maman , je vous en prie, le bande-dessinée!
O menino indiano ainda queria o gibi. Marie achou aquela obstinação por um mero gibi de um heroísmo nato. Quando criança, Marie tinha poucas obstinações. Desistia do que queria ao primeiro "não" que ouvia do pai . Não tinha forças para insistir. Não tinha paciência para relutar.
O cão continuava naquela mesma calçada, dessa vez observando um pássaro que voava de árvore em árvore, em um ritmo frenético. Marie pôde sentir, tal como o cão, a extrema arrogância que o pássaro exibia por farfalhar livremente entre as árvores. Era a perfeita analogia da pirâmide social : o cão com a pata ferida que lambia a valeta, e o pássaro que batia suas as asas com uma festividade cruel sobre seus olhos. O cigarro de Marie havia acabado e apagado entre seus lábios. Pegou o último cigarro que restava no maço. O clique do velho isqueiro Zippo confundiu-se com um rouco "Salut" que ela já havia ouvido em algumas outras situações.
- Martin. Salut. - ela fitou aquele rapaz alto, moreno, com uma leve barba e óculos de aros finos, ofertando-lhe um quarto de sorriso.
- Salut. - Ele disse de novo, esperando que ela tomasse alguma atitude socialmente aceitável.
Ela acendeu o cigarro de novo, porque com a fria saudação, o fogo se havia esvaído. Um novo clique do Zippo, e um novo chamado daquela voz rouca.
- Posso.... posso me sentar com você?
Marie balançou a mão que segurava o cigarro em direção à cadeira . Direcionou novamente o cigarro à boca, segurou-o por uma fração de segundos entre seus dentes, para depois finalmente incorporá-lo entre seus lábios e tragar o morno tabaco. Seu pequeno êxtase nicotínico acabou quando ouviu uma risada.
- Marie, ma chérie Marie, você sempre fez isso, não é mesmo?
Ela ainda fitava o cão do outro lado da rua, e virou-se para aquele rosto masculino.
- "Isso" o quê?
- Segurar o cigarro com os dentes uns segundos antes de tragá-lo de verdade. Eu sempre observei esses pequenos detalhes em você , sabe.
- Isso é psicopatia, sabe. - ela soltou a fumaça tanto pela boca, como pelas narinas.
Marie zombava de Martin, chamando-o de excêntrico e psicopata, mas na verdade , era aquela mania dele de observar seus microscópicos detalhes que fez com aquela se encantasse por aquele homem. Marie sempre julgou ser um quadro realista. Uma pintura comum, um rosto comum, mas ao ser observado a 15 centímetros com olhos semi-cerrados, detalhes incríveis poderiam ser vistos, pequenos segredos que construíam seu innerself, pinceladas vertiginosas que criavam uma pessoa. Marie acreditava que só poderia ser verdadeiramente admirada se fosse vista bem de perto. Martin sempre a viu muito de perto, com sua lupa invisível.
Martin gargalhou:
- Ah, Marie!
Ela fitou Martin tão profundamente que ele pôde sentir sua retina sendo analisada por aqueles olhos verdes. Entendeu a mensagem daquele olhar ; ele deveria falar logo porque afinal estava interrompendo aquele precioso momento de solitude da moça, para podê-la então deixá-la em paz.
- Estava indo almoçar, quando vi você aqui, fumando sob esse sol infernal. Resolvi ver se está tudo bem com você.
- Está tudo bem. - ela notou que sua taça de vinho estava vazia. Ele, com sua capacidade irritante de ler os pensamentos dela, também notou o mesmo.
- Pedirei uma garrafa de Chardonnay para nós dois. Você quer almoçar? - Marie continuou observando o cão e o mercado, e ele calou-se, já dirigindo um aceno para o garçom.
Ele voltou-se novamente para ela.
- Faz tanto tempo que não nos vemos. Um dois anos, penso eu.- sua tentativa de dialogar com Marie era tão débil quanto as lambidas do quase-setter inglês.
- Fico feliz em saber que você ainda sabe contar. - ela tomou um gole do vinho, demoradamente.
- Ah, maman! La BD, maman, LA BD!
Martin observou o menino indiano que implorava, com um francês sofrível, para que a mãe comprasse-lhe o gibi do Asterix. Riu abertamente:
- Esses imigrantes deviam se colocar no lugar deles, ao invés de quererem ser franceses e ler o que franceses lêem.
Marie precisou fazer um esforço maior para conseguir deglutir aquele gole de vinho. Mesmo assim, seu esôfago se contraiu em demasia, e ela sentiu uma forte dor compressiva na garganta.
- O que você disse? - ela fitou-o , com os olhos verdes arregalados.
- Marie, esses indianos, coitados. Estão longe de ser parecer com um francês, fisicamente falando. E querem ter a mesma cultura de um francês. É de dar pena.
- Eu não consigo acreditar que um estudioso de sociologia e direito como você possa ter um pensamento tão imbecil... Minto. Eu consigo acreditar. Um pensamento assim, vindo de você, pouco me espanta. - Ela tragou mais uma vez o cigarro, dessa vez sem segurá-lo com os dentes antes da tragada.
- A diferença entre eu e você, Marie, é que eu não sou hipócrita, nem demagogo. Convenhamos, aquele garoto nunca vai entender o que é o legado cultural e histórico da França. - Martin já havia pedido seu prato, mas Marie não o acompanhou no pedido.
- A diferença entre eu e você, Martin, é que você é absurdamente patético. Uma pessoa pobre em termos de maturidade. Você não tem argumentos. Você só tem frases patéticas, mas nenhum argumento que justifique todos os seus impropérios.
- Desse jeito, você me lembra do jeito com que falava comigo quando estávamos juntos. - ele riu.
- Eu falava desse jeito com você exatamente pelo fato de estarmos juntos. E estou falando desse jeito novamente agora , porque infelizmente estou cara-a-cara com você outra vez. - ele parou de rir.
- Marie, veja só... Eu... Eu não gostaria de remoer o passado. Eu queria aproveitar a oportunidade para lhe dar uma ótima notícia.
Ela encarava a ponta acesa do próprio cigarro, os olhos vesgos.
- Vou me casar no fim do ano. Você está convidada.
O menino indiano, agora com lágrimas secas escorridas pelo rosto, começou a seguir a mãe a uns 20 passos de distância. Concluía, por fim, que não ganharia qualquer gibi, de qualquer autor que houvesse.
- Parabéns. - respondeu, friamente.
- Você não vai?
- Por que deveria ?
- Você foi uma parte muito importante da minha vida, Marie. É certo que gostaria que você fosse.
- É certo que não fui, de forma alguma, uma parte importante. Porque se um dia houvesse sido, você não haveria me trocado pela Anne. Não que isso me preocupe ou me torne triste, mas é apenas uma constatação lógica para provar a falta de importância que eu tinha na sua vida.
- Marie, se não funcionamos como casal, pelo menos funcionamos como amigos. Por favor, vá. Anne ficaria contente.
Marie devolveu à mesa a taça de vinho que estava encaminhando à boca. O pássaro que serpentinava arrogantemente sobre a cabeça do velho cão , agora também piava agudamente, para o desespero auditivo tanto de Marie, como de seu platônico amigo canino.
- Você vai se casar com ela?
- Sim. No fim do ano. - Martin tinha deleite em repetir que seria, afinal , no fim do ano. Como se fosse uma cronologia maligna para Marie, que indicasse a ela que em um número certo de dias ela teria, então, de admitir que havia perdido para Anne a conquista do coração de Martin.
- Veja só como a vida é irônica.
- C'est la vie, ma chérie Marie.
Ela segurou violentamente o pulso de Martin. Odiava ouvi-lo proferir aquela frase. Era a frase que ele costumava dizer logo após afirmar: "Eu te amo. Fortemente. E nunca vou deixar de te amar. C'est la vie, ma chérie Marie." Era a frase que ela mais adorava quando estavam juntos, e agora, era a frase que emoldurava a mentira, o engano, a revolta.
- Nunca mais diga essa frase perto de mim de novo, seu estúpido.
Martin, que agora adquiria uma coloração púrpura, libertou seu pulso das mãos de Marie e ajeitou a gravata nervosamente. Agora era ele quem examinava a retina da moça:
- É por isso que larguei você. Sempre inteligente, sempre esperta, sempre com o melhor dos caráteres e a melhor das intenções. Isso me cansava profundamente.
- Como é?
- É isso mesmo. Eu me cansava em ver o quanto você sempre quis ser perfeita, em vê-la progredir, enquanto tinha de permanecer afogado na sua medíocre sombra.
Martin começava a piscar freneticamente , exatamente como fazia sempre que ficava nervoso. Marie levantou-se, e já segurando a bolsa, observou que Martin , com o rosto excessivamente vermelho, já tinha garfo e faca em punho, mesmo com o prato vazio à frente, como uma criança tola que espera ardentemente pela comida.
- Você não estava afogado na minha "medíocre sombra". Você se afogou na própria mediocridade. E continua debatendo-se na água todos os dias. - e apagou o cigarro no prato vazio de Martin.
Segurando-se para não derramar um grito choroso , ela caminhou lentamente até a banca de gibis à sua frente. Comprou uma revista de Asterix e Cleópatra, enquanto tinha a desagradável sensação de estar sendo observada por Martin do outro lado da rua. Enquanto pagava a revista, sentiu um pequeno peso macio repousar sobre sua sandália. Olhou para baixo. O cão de olhos moles encarava-a com sua moleza costumeira, com sua pata machucada sobre o seu pé. Depois, como se estivesse verdadeiramente constrangido em observá-la, ele desviou o olhar, e tornou a encarar o asfalto.
Marie soltou um alto soluço e duas grossas lágrimas caíram de seus olhos. Deixou o troco com o vendedor da banca, e colocou o velho cão no colo. Segurando o com um braço e a revista com o outro, correu arfando em direção ao ponto de ônibus, até conseguir entregar a revista ao franzino menino indiano. Fitaram-se , enfim , os três. Todos com os olhos moles.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Por que o futuro da humanidade é assexuado

Baseado nos tempos "moderninhos" e sem barreiras sexuais que estamos vivendo, um dia um amigo me disse acreditar que o futuro da humanidade é bissexual. Ninguém será de ninguém, a orgia será generalizada, todos sairão com todos e o compromisso e o relacionamento sério serão apenas notas de rodapé de textos de antropologia e sexualidade, tal como as famosas alcoviteiras da era medieval. Eu, por outro lado, acredito exatamente no oposto : o futuro da humanidade é assexuado. E tenho vários argumentos para isso.
É fato que existem muitíssimo poucos tabus hoje em dia. Talvez, em nível sexual, não haja mais nenhum. A humanidade já viu de tudo - ou 99% de tudo, seja do pior ou do melhor. Hoje existe espaço para qualquer bizarrice em termos de relacionamento , basta você procurar no lugar certo (ou seria o errado?) . Então, discussões a respeito do assunto, que antes poderiam alarmar pessoas por dias e dias, hoje são escancaradas em telejornais às 20 h , horário em que crianças ainda estão acordadas, e só conseguem causar sono e tédio nas famílias. Ninguém se abala se a filha de 07 anos está vendo uma professora de pole dancing instruir as suas alunas na televisão. Ninguém se choca. O sexo virou rotina. Sexo, sexo, sexo.
O movimento feminista e o sexandthecityista também colaboraram para que qualquer erotismo se tornasse um perfeito enfado. Todas agora são muito loucas e fogosas e transam na posição origami psicodélico, é só você querer. Todas são beldades, também. O último Carnaval foi um ótimo exemplo para mostrar que hoje todas as mulheres têm silicone, todas são loiras, todas são malhadas , todas são bronzeadas e todas são "gostosas". Um exército de gostosas. Bundas e bundas que passam em frente a olhos masculinos bocejantes. Corpos e rostos todos iguais. Perdeu-se a individualidade do corpo: aquela em que uma tem o seio pequeno, outra os cabelos mais crespos, outra uma pele mais branca. Todas - e todos, já que a banalização corporal atingiu a classe masculina também - têm as mesmas curvas e os mesmos cabelos. O mesmo cérebro. A mesma conversa. Como disse um professor meu, hoje em dia todas são tão identicamente perfeitas que para ele a charmosa é aquele com um dente um pouquinho torto, a sexy é aquela com o cabelo crespo, a bonita é a com um corpo normal, e não masculinizado de tanta academia. Um exército de mulheres gasta quantias obscenas de dinheiro para tornar seu corpo cada mais libidonoso, mais ousado, mais desejável, mais sexy. Fico pensando se não é tedioso para um homem ir a uma festa e ver 90% das mulheres mostrando 95% das pernas e 100% do decote. Os seios deixam de ser o mistério a ser revelado e viram apenas uma carne cotidiana. Mais sexo, mais sexo, mais sexo.
As relações, por sua vez, tornam-se cada vez mais fúteis e efêmeras. Existe pouco interesse em manter um relacionamento sério e com sentimento. Mulheres , querendo ser modernas ou fingindo ser, afirmam que não querem nada além do sexo. Homens , aproveitando o espaço que as mulheres proporcionam, também não vêem razão para perder tempo com um relacionamento. Surgem relações de 2, 3 dias. Enjoa-se fácil. Namoros são terminados porque "ela não transava do jeito que eu queria" ou "ele não quer transar comigo todo dia". O sexo é a prioridade, e não o complemento do relacionamento. É ele, de novo. O sexo.
A obsessão pelo sexo tornou-se tão doentia que é difícil hoje em dia manter um papo decente e minimamente cerebrado com alguém por aí. É difícil encontrar uma pessoa do sexo oposto que realmente queira uma conversa desinteressada - porque muitas vezes, quando essa conversa ocorre, todos nós já sabemos qual é o interesse : é o sexo. É tremendamente complicado achar um único alguém que tenha um papo suficientemente culto e uma vida deliciosamente vivida para você voltar para casa e pensar "Puxa, como ele é interessante." Todos são iguais. Todos são a mesma genitália burra de sempre. Pênis burros e vaginas burras que vão a micaretas e fazem a mesma dança do "Oi tudo bem qual seu nome o que vc curte costuma sair quantos anos você tem " para se acasalarem, se despedirem e procurarem uma outra genitália burra com a qual possam acasalar. São conversas e pessoas tediosas que não me despertam o menor interesse. É doloroso olhar no calendário e pensar : "fazem tantos meses que não encontro alguém de valia". Aquele alguém que coloca um pingo de tinta vermelha em pilhas e pilhas de folhas em branco. Hoje as folhas brancas se acumulam. Elas gritam "SEXO!" cegamente, e nada mais conseguem enxergar.
É por isso tudo que acredito que o futuro da humanidade é assexuado. Assexuados célebres como Morrissey, Moby e o nosso querido Sheldon Cooper têm justificativas indiscutíveis dos benefícios do não-envolvimento com qualquer ser humano. Não sou partidária do assexualismo e ainda gosto de homens, e ainda estou interessada em relacionamento com eles. Mas é muito lógico e compreensível ser assexuado. Sex is overrated. Existem tantas coisas mais incríveis do que o sexo pelo sexo no mundo, por que raios ele deveria ser assim tão superhipervalorizado? É isso que defendem os assexuados. Eles não se interessam no sexo. Sexo é para os fracos. Apenas uma humanidade desesperada por prazeres carnais se entrega a eles, ao invés de se dedicar às artes, à ciência e a causas filantrópicas, de forma integral e voluntária. Os assexuados não são fracos assim.
Portanto, levando em conta o banho que levamos todos os dias de conversas sobre sexo, reclamações sobre sexo, programas sobre sexo, lingerie, camisinha, strip tease, como fazer seu homem enlouquecer na cama, como dominar sua mulher em 10 dias, como deixá-lo louco , como deixá-la subindo pelas paredes, e peitos siliconados, e bundas avantajadas, e requebro, e rebolation, e aumente seu pênis em 10 dias, e viagra, e himenoplastia, e isso e aquilo, etc e tal, continuamos atordoados de tanto sexo, sexo, sexo. Sentindo sono, sono, sono.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
A estrada de ladrilhos amarelos
E descobriu que nenhum homem possuía cérebro. Nem coração. E muito menos, coragem.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Sobre o apego.

Existe um sentimento que, para mim , é talvez mais intenso que o amor. Mais profundo que a paixão. Não que ele seja mais intenso no grau em que ele balança as emoções, tremelica a alma, e colore de vermelho os pensamentos. Seria algo que o inglês chama de infatuation - mas, sem a rapidez que a definição da palavra mostra, esse é um sentimento que vem devagar, toma conta de nós como areia movediça, uma teia sentimental. Esse sentimento é o apego.
O apego não surge de repente. Ele aparece com os anos. Diferente do amor, que é algo sublime, Divino e incontestável, que pode surgir automaticamente (no caso amor maternal , paternal e fraternal) ou com o tempo (em relacionamentos duradouros) , e também diverso da paixão, que é repentina, arrebatadora e dínamo de loucuras, o apego é assim: chega em sua casa silenciosamente, com sua pequena maleta, e vai espalhando seus pertences pela sua mobília. Você nem nota. Dentro de sua casa, pessoas entram e saem, convidados derramam vinho no tapete - e ninguém nota as fotos que ele pendurou nas suas paredes. Ele dorme na sua cama, sem que você saiba. Ele faz tranças nos seus cabelos enquanto você sonha acordado, sem perceber. Mas um dia , quando você se olha no espelho após ter tomado sua xícara de café, vestido de pijama e bom senso , você pensa - eu me apeguei - e ZÁS , eis que surge ele, com uma imponente máscara preta de carnavais venezianos. O APEGO, em negrito e maiúsculas.
Inicia-se então uma jornada de "aperto no peito" (existe outra definição melhor para "aperto no peito" do que "aperto no peito"? Creio que não.) e saudades. Porque o apego é assim. Ele dói. Ele é uma coleira invisível que te amarra a pessoas, fatos, lembranças, objetos, manias irritantes suas e dos outros também. Por mais que não se goste daquilo ao qual se é apegado, não adianta - você se apegou. E como a raposa de Saint-Exupéry já afirmou sabiamente em O Pequeno Príncipe , "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". Tal frase não poderia definir melhor essa sensação de angústia, dor, aprisionamento, delícia e nostalgia que é o apego. É uma flor que você é obrigado a regar todos os dias, por vezes regando com carinho , outras vezes com desgosto.
E é devido a esse apego, a essa algema que une nossos corações a pequenas migalhas de eternidade espalhadas pelo cotidiano que nos faz manter no armário aquelas caixas abarrotadas de cartas. A guardar o frasco vazio daquele perfume antigo. A continuar passando por aquela rua, só para ver o jardim tão bem cuidado daquela senhora. A permanecer junto a alguém, mesmo que as coisas não estejam tão bem , mas simplesmente porque você não consegue se imaginar acordando sem ver ao seu lado o travesseiro docemente amassado por onde ela se deitou. A continuar morando com ela, porque é aquela espuma de shampoo que ela deixa no chão do box que te faz sentir vivo. A permanecer unida a ele, porque são as mãos dele, magras, segurando o volante, que fazem você olhar para as estrelas e agradecer a Deus e ao Infinito por estar ali. É aquela imagem dele , sorrindo, recolhendo com aquelas mãos o pó de café que ele derramou sobre a mesa que te fazem suspirar de júbilo nos momentos à sós.
Piegas , banal ou sensato, o fato é que a verdade, para mim, é só essa. Quando se tem apego, não existe mais a carne puramente carne, o desejo simplesmente desejo, o amor somente amor . Você cativou a raposa. O príncipe te cativou. Um liame , curto e imperceptível, te liga àquelas memórias, àquelas pessoas, àqueles rostos. Anos se passarão, e mesmo se o contato com essas pequeninas almas ficar perdido , elas estarão lá, embalsamadas nas nossas humildes sinapses. Um segredo: você pode ter desaparecido da minha vida, mas com as minhas lembranças, ah, eu olho para seus olhos todos os dias...
É o apego que, muitas vezes, deixa ainda mais árida a dor de um fim de relacionamento. Quando o caminho do casal se bifurca, resta o medo: "Eu nunca mais vou vê-lo? Nunca mais conversaremos?" Não é a vontade de voltar para os braços para a pessoa. Não é desejo. Porque o apego é a revolta. É a inocente indignação de não poder, nunca mais, ter com ela os mesmos momentos que haviam antes. Nunca mais ver comédias antigas na televisão. Nunca mais brigar pelo último chocolate. Nunca mais ver o sorriso dela ao entrar no seu carro. Nunca mais conversar com ela, tagarelar com ele, a menor banalidade que seja. Não saber mais como anda a vida dele. Os dias dela. Se está contente. Se cortou o cabelo. Se aquele arranhão sarou. Meu Deus, nunca mais ver a cicatriz daquele arranhão. Nesse momento, o arranhão torna-se mais monumental que as pirâmides do Egito. O arranhão, naquele joelho, guarda nele todas as suas saudades. Todas as suas vontades. Pessoas que não voltam mais. Tesouras que não voltam atrás.
Certa vez pedi um cappuccino em um balcão, sorrindo. E o barista me disse: "O café vai bem com um sorriso." E ao me entregar a xícara de café, notei que ele havia desenhado na espuma um pequeno sorriso, e embaixo, lia-se: SMILE. Aquele pequeno presente, perecível, desmanchável em apenas uma volta com a colher, foi, para mim, a tradução do apego. Em um só gole, o sorriso e a palavra se desmanchariam em café e leite, e aquele momento terminaria tão logo quanto a bebida. Pudesse eu eternizar aquele café! Fosse aquilo um flerte ou uma mera gentileza, o barista jogou ali em minha xícara pequenas migalhas da eternidade dele , que acabaram perdidas em espuma. Disse a ele o quanto tinha achado tudo aquilo belo e doce, tomei a minha bebida, paguei, e fui embora, com a quase certeza de que nunca mais o veria novamente, tampouco a espuma.
E tudo perdeu-se em espuma. A espuma do leite, a espuma do mar, a espuma do shampoo, a espuma do beijo. Nesse mundo de espumas, somos todos príncipes e raposas algum dia. Apegados àquele arranhão.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
La Résistance
Hoje só venho desejar uma boa última semana do ano para todos e deixar uma imagem para reflexão, ahahah!
Abraços...
sábado, 19 de dezembro de 2009
Brisa
Ele gosta de jogar, é um sedutor
Ele voa sobre seus brinquedos caros
E ninguém sabe de quem ele foge
Nem quando volta pra casa
Agora que finalmente há uma
Ele pode ser qualquer coisa
Você o adoraria de qualquer jeito
Ele é um tesouro sem mapa
Um mistério sem pistas
Fingindo que é tímido
Para disfarçar o orgulho
Fingindo charme
Para disfarçar a melancolia
Você nem notaria a diferença
Ele pode estar em qualquer lugar
Com qualquer pessoa
Mas ele espera por alguém
Que explode sob forma de sonho
nas profundezas do seu olhar sereno
Ele se aventura, ele se perde e se encontra
Ele se esconde e se diverte, ele tropeça
Ele parece criança, ele se assusta fácil
Ele amadureceu, ele aprendeu a seduzir
Qualquer uma, de qualquer cor ou tamanho
Você não saberia dizer quando
Ele passa ao seu lado e você nem repara
Ele arquiteta uma liberdade onde ninguém o alcança
Você não acredita que pode, ainda que deseje
Você não agüentaria os gritos e acenos
Sentir o olhar sereno se inquietando
com tantas cores e perfumes e formas
Você o ignoraria se pudesse, para seu próprio bem
Ele sabe e segue veloz, com os cabelos ao vento
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
SOLIDÃO
Ela sai, tranca a porta. Fecha o sobretudo preto. No hall do prédio velho e triste com cheiro de naftalina, ela espera o elevador enquanto olha os sapatos vermelhos. Naquele frio, o cobertor chamava de volta para o apartamento.
Rua. Sujeira, cheiro de frango assando, mofo do sebo da esquina. O sapato toc-toc no asfalto. Buzina. Morar num bairro pobre é triste e sujo e bonito. Olha aquele mendigo dormindo... Comeu marmita da Igreja. Ponto de ônibus, ela se aconchega do vento dentro do sobretudo. Um casal briga baixinho: ela negra, ele branco. Uma senhora com sacolas respira fundo. Passam ônibus, um, dois, cinco, nenhum é o dela.
Senta na janela. Abre um livro, mas o sono bate. Melhor observar. O rapaz ao seu lado batuca um samba que só ele escuta em fones minúsculos. Um homem finge dormir no banco preferencial assim que uma grávida entra no ônibus. O cobrador deixa uma senhora que fala sozinha descer sem pagar a passagem. Cada um se isola a seu modo.
Cidade grande e perdida, as pessoas na rua passam, casacos, gorros, luvas, as janelas dos carros embaçam com a fina chuva que cai mansamente. Suja e brilhante, cheiros podres e doces, shampoo e lixo.
Rua, chuva. Ela não se apressa, deixa a água encharcar seus cabelos. Os sapatos toc-splash-toc no asfalto molhado. Cada passo uma sentença. Ela chega à porta descascada e toca a campainha. Ele abre. Ela entra.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Feng shui

E antes de terminar o ano inauguramos um novo layout para o QueLegalZine. Inaugurar algo no final do ano... por que não fazer o debut da nova cara do zine no início de 2010? Porque somos do contra, porque esse papo de enrolar o mês de dezembro para só mostrar serviço em janeiro, como começar regime às segundas-feiras, não é com a gente. Adotamos nesse espaço o slogan da Cartoon Network: A gente faz o que quer.
O layout do QueLegalZine já estava em processo de mudança há algum tempo. No decorrer do ano ficou claro para todos que colaboram com o zine que já estava na hora de trocar o visual da sala, aplicar o feng shui por aqui, pois o canto do amor e do dinheiro não estavam sendo devidamente valorizados. Okay, estou de brinks. Não faço idéia onde poderia ficar o canto do amor e do dinheiro nesse blog (hummm... talvez nos textos da Paula e nos do Odin respectivamente).
Mas ficou aconchegante, non?
E o fato de ter um Elvis dourado e um São Jorge no topo da página já deixa explícito que a casa tem bom gosto. Então puxe uma cadeira, pegue um biscoitinho, tome um café e espere por absurdos gerais/globais/universais.
Que legal!
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Por quê?
Ei.Por que eu tive de te conhecer?
Por que eu tenho de te amar?
Por que, quando eu te amar, eu tenho de sofrer?
Por que eu tenho de te querer?
Por que nós sonhamos juntos,
e criamos nossos reflexos no outro,
pensando que nós éramos espelhos,
imagens de um ego ainda rouco?
Por que quando nos amamos
não criamos um teatro de cômicos,
de sátiros atores da noite,
damos cores aos nossos paraísos,
esquecemos do asfalto e do preciso,
vivemos na areia dos doces contos?
Por que você trouxe suas bonecas quebradas,
e não jogou os cacos de louça fora?
E assim, com caco por caco,
foi cortando nossos laços,
sangrando o sentimento embora?
Por que esse meu batom colorado,
me lembra de você tão loucamente?
Por que eu te gosto assim, tão imperfeito,
tão mentalmente intruso, tão roubado e tão ladrão,
tão rabiscado no meu rubro tom?
E você caligrafou no meu corpo
eu te disse que foi pouco a pouco
escrevemos um poema de loucos
um amor de caboclos
um delírio de poeta
o idílio dos profetas
o clichê delícia e banal
mas você foi vírgula, e eu, ponto final.
sábado, 14 de novembro de 2009
A chuva sagrada



