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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Se había perdido en su propia oscuridad.


Ela havia se perdido na própria escuridão. Perdia-se todos os dias num mesmo grito.
Um dia acordou, com os cabelos desgrenhados, e encostou os pés no piso frio. Eram três da madrugada, e soprava um vento gelado entre as árvores que se insinuava pela branca e fina cortina do quarto. Era uma casa de campo grande, isolada do caos urbano, no topo de uma colina bem verde. Durante o dia, assumia uma aconchegante conformação bucólica, mas à noite era simplesmente lúgubre, mas o tom depressivo daquelas sombras a encantava , e à medida que o luar entrava pela janela ela se sentia mais viva.
Porém, naquela noite, não foi assim. Os pés caminharam sobre o piso frio até em frente ao espelho da parede oposta à cama. Ela mirou-se sob a luz do luar que iluminava seus contornos. Seus dois grandes olhos eram duas circunferências brancas em meio à escuridão do recinto. Piscou-os uma vez , e então percebeu com assombro: estava perdida. Absolutamente perdida. Isolada do mundo, excluída dos próprios pensamentos, ela sentia como se fosse um corpo vivo, mas que o coração estivesse trancafiado em alguma outra parte. Ela não se encontrava. Sentia-se como se houvesse penetrado em um perigoso labirinto que a aspirava para um universo cheio de dúvidas. Cheio de receios. Cheio de revoltas.
Repousou uma mão sobre o espelho e notou que o calor da mesma produziu um pequeno contorno de vapor sobre o vidro. Sim, estava viva. Sim. Ela sonhava , mas eram sonhos de asas cortadas, sangrantes. Procurava desesperadamente praias com sóis que nunca se punham, auroras eternas, procurava encontrar pássaros feridos e poder curá-los e soltá-los um dia perto do mar, sorrindo. Procurava sujar as unhas de terra em jardins cheios de flores, lamber dedos sujos de sorvete numa rua qualquer, sorrir sinceramente com alguém, brigar pelo último gole de refrigerante, gritar músicas cafonas dentro de um carro, acordar querendo ver o sol nascer no lugar mais distante e ir com alguém, e gritar com alguém, e festejar com alguém.
Procurava ter os pesadelos mais pueris e os desejos mais loucos de infância, sentir os ouvidos de alguém ouvindo seu coração bater, procurava crescer, procurava saber como era a ilusão das cores. Queria pintar um arco-íris nos olhos de alguém, sentir o suor dele como se fosse tinta, que pintasse seu corpo, que concordasse em ir junto com ela aos mais depravados destinos, onde junto seriam dois perdidos, dois loucos, duas serpentes, duas gotas de sangue, duas crianças. Sonhou com os mais tenebrosos amores e os mais encantadores medos. Queria alguém que a ajudasse a consertar suas bonecas quebradas. Queria alguém que pudesse enxergá-la bem dentro de sua pupila.
E enxergando as próprias meninas chorosas de seus olhos, ela percebeu. Não estava perdida porque não encontrava seu caminho. Mas porque não havia encontrado alguém corajoso o suficiente para percorrê-lo com ela. Se sentía perdida dentro de su propia oscuridad. Se sentía perdida, hasta que él llegó con la luz en la mano.

sábado, 7 de agosto de 2010

Agridoce.


Eles haviam combinado de ver o sol nascer na praia. Ela estava sentada na areia, e ele andava ao longe pela orla. O céu era ainda dominado por azul lápis lázuli preguiçoso da madrugada, e havia um frescor paradisíaco no ar que ela respirava. Era o ar da manhã que ela tanto adorava que fê-la sugerir a ele a verem o sol nascente naquele lugar tão lindo. Segurou um pequeno graveto com suas mãos de menina e desenhou rabiscos anárquicos na areia. Seus pés afundavam os dedos na areia fria enquanto ela estava sentada. A maré estava baixa, e as ondas repicavam pequenas lá longe, muito longe.
Os pensamentos dela voavam em espirais enquanto ela se indagava porque estava ali, porque enfim a vida tinha decidido transformar seus mais débeis sonhos em vívida realidade. Por que, em meio a tanta dor e lágrima e sal no mundo, ela havia sido a escolhida, a escolhida a ser feliz? O seu medo em perder aquela doçura de uma hora para outra era tão grande que ela agarrou aquele graveto como se fosse o seu destino materializado em suas mãos. Olhou o mar, sempre mar, sempre constante. A eternidade de suas ondas a acalmava momentaneamente, até que uma nova onda de pavor não invadisse sua consciência.
Ela observou o corpo dele caminhar pela orla. Ele dava pequenos chutes nas espumas de mar que caíam sobre seus pés e mantinha um ar contemplativo no rosto. Estaria ele exatamente com o mesmo medo que ela? Estaria ele com medo de que uma hora para outra garras de fera rasgassem aquele cenário idílico que os dois haviam construído? Ele se mantinha andando, cabisbaixo, ao lado da água. Agora, o mar soprava um vento frio contra os dois. Eles estavam separados fisicamente, mas unidos pelas mesmas filosofias. Ligados pelos mesmos gritos.
Sua pele branca ficou arrepiada e ela abraçou as próprias pernas. Sua vontade por ele era tanta que ela raspou os dentes na pele de seu joelho. Observou-o com a boca na própria pele, e percebeu, naquele momento, que ela queria tê-lo não fisicamente, mas sugá-lo, absorver sua alma, colocar as mãos em seu coração e banhar-se da essência dele, de tudo que ele emitia. Ele havia lhe dito, numa madrugada enquanto ela dormia : "Nenhum sonho é melhor que essa realidade." Ela nunca lhe contou que havia ouvido aquilo, mas naquela noite ela dormiu derramando uma lágrima em seu travesseiro.
Agora que ela lembrava dessas palavras preciosas, ela não conseguia se conter. Ele jogava um pouco de água fria no rosto, enquanto ela estava chorando. Ela chorava, de soluçar, enquanto ele corria até ela com um sorriso ingênuo no rosto. Conforme ele se aproximava dela e percebeu que ela chorava, o sorriso dele se desmanchou numa expressão de dúvida. Sentou-se ao lado dela:
- Por que chora?
Ela olhou para ele, os olhos rubros de tanto choro, a cabeça repousando sobre os próprios joelhos. Ele entendeu aquele olhar. Desfez aquela posição semi-fetal que ela mantinha com seus braços, e abraçou-a.
- Venha cá. O sol vai nascer. E eu e você vamos vê-lo brilhar.
A cada doce frase que ele soltava, o pânico tomava conta do seu espírito. Ela não conseguia ouvir aquelas palavras e aproveitá-las, cada doce delírio era proseguido de um pavor incalculável de perder aquele encanto. Ela não podia mais reter aquele arranhão dentro de si. Soltou com uma voz suplicante:
- Oh, eu tenho medo...
E sem que ela pudesse imaginar aquela resposta, ele disse, os olhos mais profundos que ela já havia visto:
- Eu também tenho medo. E é por isso que eu trouxe isso.
E tirou de uma sacola uma manga madurinha, fresquinha, a fruta que ela tanto gostava.
- Para você sorrir e se esbaldar .
Ela começou a chorar de novo. Os dois se abraçaram na areia, enquanto os primeiros raios do sol despontavam no céu. Ele segurou os cabelos dela levemente, querendo prendê-la com ele para toda a eternidade. Entre sol, céu, sal e manga, eles eram duas crianças num verão que nunca acabou.

terça-feira, 1 de junho de 2010

A pérfida arte da auto-sabotagem.


Não tenho, ultimamente, a menor inspiração para escrever qualquer texto narrativo ou com um pingo de tom poético. Forcei-me, alguns dias, a encontrar um tema que fosse de valia, mas todos só me traziam enfado. Não consegui, simplesmente, encontrar tema algum, e fiquei entediada.
Passaram-se os dias, andei refletindo sobre a constante cobrança que fazemos de nós mesmos, seja a respeito de coisas tão rotineiras como um texto de um blog, como em relação a eventos realmente importantes. O assunto murmurava em minha cabeça, mas sem alguma nitidez específica. Apenas sussurrando em algum canto.

Hoje, após assistir a Vicky Cristina Barcelona pela segunda vez, pude vê-lo com um olhar menos curioso e mais crítico, e enfim refletir sobre alguns temas que eu ainda não havia percebido que esse filme aborda. E aquele assunto que até então apenas cochichava em minha mente pode adquirir um timbre agora mais audível : tudo é a respeito da pérfida arte da auto-sabotagem.

Sim, pérfida. É a palavra perfeita. Se tiverem sugestões para alguma melhor, por favor, digam-me. Fico aterrorizada com a PÉRFIDA capacidade que temos de destruir nossa própria auto-estima e irritar a nós próprios com pequenas angústias todos os dias. Você sabe que é um grão-mestre da arte da auto-sabotagem quando a única pessoa que realmente consegue estragar o seu dia é você mesmo. E é o que todos nós fazemos, uma vez ou outra.

A auto-sabotagem se faz presente não apenas com as cobranças excessivas que fazemos em ser o mais rico,o mais bem sucedido, o mais culto, o mais sexy, o mais popular. Mas também porque simplesmente não percebemos que ser rico, bem sucedido, culto, sexy ou popular simplesmente não é, e nunca será, tudo na vida. A felicidade não reside nisso. Ela reside em algo que ninguém ainda soube, mas definitivamente, não em conquistas. Se conquistas construíssem felicidade, não veríamos tantos bem afortunados, belos, cultos e interessantes cometendo suicídio , usando drogas, reclamando de migalhas.

Pois bem, vamos ao filme. A maioria dos que assistem gostam muito de debater a respeito de Maria Elena ou Cristina, que são, para muitos, as personagens mais intrigantes da trama. À primeira vez que o vi, já não consegui ver realmente tanta cor na interação das duas, mas nessa segunda vez pude concluir realmente que a personagem que sela todo o filme, e que tem mais teor dramático é, sem dúvidas, Vicky. Vicky é a garota que sempre planejou sua vida para que esta fosse a mais perfeita possível, e ao ter encontrado o homem perfeito e a carreira perfeita, percebeu que enfim, tinha a vida dos sonhos. Porém, esse sonho se desestabilizou quando ela finalmente encontra Juan Antonio, o pintor boêmio, interessante, que tinha todo um novo mundo de possibilidades que ela, amante ferrenha das artes, estava louca para conhecer. A partir de então, ela passa a nutrir uma paixonite pueril por Juan Antonio, enquanto o noivo se esforça para agradá-la. (Aliás, Vicky sofre daquela tolice de achar que só porque alguém é atraente e tem o mesmo padrão cultural que você, essa pessoa já a sua alma gêmea. ) Quando ela enfim tenta passar uma tarde por Juan Antonio, num incidente desagradável que envolve Maria Elena tentando atirar nos dois, ela percebe a loucura que está fazendo. Entretanto, continua alimentando o assunto em sua memória.

Vicky é o símbolo da auto-sabotagem. Amarrou-se durante toda vida à obrigação de ter a vida perfeita, o homem ideal, a carreira fantástica. Mas Vicky, por ter tanta obsessão em ser mais feliz, foi a que mais sofreu ao conhecer Juan Antonio. Tudo porque o mundo artístico de Juan, e os clichês sedutores que ele dizia, pareciam ser para Vicky mais "felicidade" do que aquilo que ela estava vivendo no momento. De repente, aquela era a vida perfeita - a vida despreocupada, as tardes de verão em Barcelona, a liberdade cultural e comportamental européia. Vicky alimentava esses sonhos adolescentes enquanto seu noivo proporcionava-lhe afeto e uma vida confortável. Mas aquilo não era mais felicidade. Ela queria ter uma vida gritantemente deslumbrante. Como se isso, afinal, fosse necessário!

Qual o problema em não ser , realmente, a mais feliz das criaturas? Ter uma vida emocionante, cheia de aventuras e loucuras, dá um trabalho insuportável. Você precisa acordar todos os dias com idéias mirabolantes que dêem "todo um colorido" ao seu dia , ou então conhecer alguém interessante, comer um prato exótico, viajar a um lugar absurdo, pular de pára-quedas, transar com alguém estonteante e todas essas imagens que Kodak, Coca-Cola, Marie Claire e Playboy construíram para fazer com que você, um dia, queira se matar se jogando da ponte mais próxima. Imaginem o quão intragável deve ser conviver com alguém como Juan Antonio: você tem de ser a mulher fatal, a diva estonteante, a louca endiabrada, a poeta dos sonhos, gritar e ter crises intempestivas de humor, e estar sempre com uma idéia extravagante na cabeça, porque senão ele pode se entendiar. Isso, para mim, é tortura.

Admitir que é possível - e perfeitamente normal - não ter a vida mais extraordinária da Terra nos tira um grande peso da consciência. Quando você aceita que pode sim, reclamar da sua vida, e que seus dias podem sim, ser uma constante reticência com um ou outro ponto de exclamação, você pára de planejar eventos e festinhas insanas, cansa de idealizar e consegue, finalmente, desfrutar da calmaria que é ter uma vida NORMAL. Ninguém, absolutamente ninguém, tem a obrigação de ser incrivelmente feliz no mundo. Você pode acordar , colocar os pés nos seus chinelos, e murmurar um salutar "Que ódio que eu tenho dessa rotina" que está tudo bem. Ninguém vai te culpar por isso. Você não precisa se culpar por isso. Com exceção de situações realmente graves e extremas que você realmente precisa solucionar, o resto pode ser vivido de forma passiva e leve. Infelizmente, a sociedade, a cultura, a mídia e você mesmo exigem que você tenha uma vida incrível para ser incrível.

Não, não. Você pode ser incrível sendo você mesmo. Tomando aquela xícara de café meio frio enquanto assiste seriados antigos e manda às favas a ditadura da felicidade, você é a mais feliz das criaturas.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Les oiseaux ne sont pas des oiseaux.

Marie fumava seu melhor cigarro , sentada à mesa minúscula de um café igualmente diminuto de Montmartre. Observava o mercado de quadros e livros velhos que se estendiam por toda a calçada oposta. Uma criança indiana chorava violentamente, porque queria uma revista de Asterix, enquanto a mãe, provavelmente sem dinheiro suficiente para comprar criações de Uderzo e Goscinny, observava um jogo de xícaras com pires lascados na barraca ao lado, indiferente ao clamor do filho.

Um cão que poderia ser confundido com um setter inglês tinha uma pata dianteira machucada e lambia a valeta da calçada , esperançoso que o cimento pudesse ser comestível. Marie riu, e ao mesmo tempo sentiu-se constrangida em ter capturado aquele momento de pura decadência daquele animal. Marie tinha a péssima mania de humanizar animais, principalmente cães e pássaros. Acreditava que eles também tinham planos e objetivos , e que seus sonhos caninos e orníticos pudessem ser frustrados tais como os de seus parentes humanos. O cão fixou seus olhos moles para ela, como se pudesse sentir que ela estava observando seu débil comportamento na calçada. Marie sentiu um golpe no estômago. Sentia-se um monstro por ter servido de platéia risonha para o triste espetáculo que o animal protagonizava.

- Maman , je vous en prie, le bande-dessinée!

O menino indiano ainda queria o gibi. Marie achou aquela obstinação por um mero gibi de um heroísmo nato. Quando criança, Marie tinha poucas obstinações. Desistia do que queria ao primeiro "não" que ouvia do pai . Não tinha forças para insistir. Não tinha paciência para relutar.

O cão continuava naquela mesma calçada, dessa vez observando um pássaro que voava de árvore em árvore, em um ritmo frenético. Marie pôde sentir, tal como o cão, a extrema arrogância que o pássaro exibia por farfalhar livremente entre as árvores. Era a perfeita analogia da pirâmide social : o cão com a pata ferida que lambia a valeta, e o pássaro que batia suas as asas com uma festividade cruel sobre seus olhos. O cigarro de Marie havia acabado e apagado entre seus lábios. Pegou o último cigarro que restava no maço. O clique do velho isqueiro Zippo confundiu-se com um rouco "Salut" que ela já havia ouvido em algumas outras situações.

- Martin. Salut. - ela fitou aquele rapaz alto, moreno, com uma leve barba e óculos de aros finos, ofertando-lhe um quarto de sorriso.

- Salut. - Ele disse de novo, esperando que ela tomasse alguma atitude socialmente aceitável.

Ela acendeu o cigarro de novo, porque com a fria saudação, o fogo se havia esvaído. Um novo clique do Zippo, e um novo chamado daquela voz rouca.

- Posso.... posso me sentar com você?

Marie balançou a mão que segurava o cigarro em direção à cadeira . Direcionou novamente o cigarro à boca, segurou-o por uma fração de segundos entre seus dentes, para depois finalmente incorporá-lo entre seus lábios e tragar o morno tabaco. Seu pequeno êxtase nicotínico acabou quando ouviu uma risada.

- Marie, ma chérie Marie, você sempre fez isso, não é mesmo?

Ela ainda fitava o cão do outro lado da rua, e virou-se para aquele rosto masculino.

- "Isso" o quê?

- Segurar o cigarro com os dentes uns segundos antes de tragá-lo de verdade. Eu sempre observei esses pequenos detalhes em você , sabe.

- Isso é psicopatia, sabe. - ela soltou a fumaça tanto pela boca, como pelas narinas.

Marie zombava de Martin, chamando-o de excêntrico e psicopata, mas na verdade , era aquela mania dele de observar seus microscópicos detalhes que fez com aquela se encantasse por aquele homem. Marie sempre julgou ser um quadro realista. Uma pintura comum, um rosto comum, mas ao ser observado a 15 centímetros com olhos semi-cerrados, detalhes incríveis poderiam ser vistos, pequenos segredos que construíam seu innerself, pinceladas vertiginosas que criavam uma pessoa. Marie acreditava que só poderia ser verdadeiramente admirada se fosse vista bem de perto. Martin sempre a viu muito de perto, com sua lupa invisível.

Martin gargalhou:

- Ah, Marie!

Ela fitou Martin tão profundamente que ele pôde sentir sua retina sendo analisada por aqueles olhos verdes. Entendeu a mensagem daquele olhar ; ele deveria falar logo porque afinal estava interrompendo aquele precioso momento de solitude da moça, para podê-la então deixá-la em paz.

- Estava indo almoçar, quando vi você aqui, fumando sob esse sol infernal. Resolvi ver se está tudo bem com você.

- Está tudo bem. - ela notou que sua taça de vinho estava vazia. Ele, com sua capacidade irritante de ler os pensamentos dela, também notou o mesmo.

- Pedirei uma garrafa de Chardonnay para nós dois. Você quer almoçar? - Marie continuou observando o cão e o mercado, e ele calou-se, já dirigindo um aceno para o garçom.

Ele voltou-se novamente para ela.

- Faz tanto tempo que não nos vemos. Um dois anos, penso eu.- sua tentativa de dialogar com Marie era tão débil quanto as lambidas do quase-setter inglês.

- Fico feliz em saber que você ainda sabe contar. - ela tomou um gole do vinho, demoradamente.

- Ah, maman! La BD, maman, LA BD!

Martin observou o menino indiano que implorava, com um francês sofrível, para que a mãe comprasse-lhe o gibi do Asterix. Riu abertamente:

- Esses imigrantes deviam se colocar no lugar deles, ao invés de quererem ser franceses e ler o que franceses lêem.

Marie precisou fazer um esforço maior para conseguir deglutir aquele gole de vinho. Mesmo assim, seu esôfago se contraiu em demasia, e ela sentiu uma forte dor compressiva na garganta.

- O que você disse? - ela fitou-o , com os olhos verdes arregalados.

- Marie, esses indianos, coitados. Estão longe de ser parecer com um francês, fisicamente falando. E querem ter a mesma cultura de um francês. É de dar pena.

- Eu não consigo acreditar que um estudioso de sociologia e direito como você possa ter um pensamento tão imbecil... Minto. Eu consigo acreditar. Um pensamento assim, vindo de você, pouco me espanta. - Ela tragou mais uma vez o cigarro, dessa vez sem segurá-lo com os dentes antes da tragada.

- A diferença entre eu e você, Marie, é que eu não sou hipócrita, nem demagogo. Convenhamos, aquele garoto nunca vai entender o que é o legado cultural e histórico da França. - Martin já havia pedido seu prato, mas Marie não o acompanhou no pedido.

- A diferença entre eu e você, Martin, é que você é absurdamente patético. Uma pessoa pobre em termos de maturidade. Você não tem argumentos. Você só tem frases patéticas, mas nenhum argumento que justifique todos os seus impropérios.

- Desse jeito, você me lembra do jeito com que falava comigo quando estávamos juntos. - ele riu.

- Eu falava desse jeito com você exatamente pelo fato de estarmos juntos. E estou falando desse jeito novamente agora , porque infelizmente estou cara-a-cara com você outra vez. - ele parou de rir.

- Marie, veja só... Eu... Eu não gostaria de remoer o passado. Eu queria aproveitar a oportunidade para lhe dar uma ótima notícia.

Ela encarava a ponta acesa do próprio cigarro, os olhos vesgos.

- Vou me casar no fim do ano. Você está convidada.

O menino indiano, agora com lágrimas secas escorridas pelo rosto, começou a seguir a mãe a uns 20 passos de distância. Concluía, por fim, que não ganharia qualquer gibi, de qualquer autor que houvesse.

- Parabéns. - respondeu, friamente.

- Você não vai?

- Por que deveria ?

- Você foi uma parte muito importante da minha vida, Marie. É certo que gostaria que você fosse.

- É certo que não fui, de forma alguma, uma parte importante. Porque se um dia houvesse sido, você não haveria me trocado pela Anne. Não que isso me preocupe ou me torne triste, mas é apenas uma constatação lógica para provar a falta de importância que eu tinha na sua vida.

- Marie, se não funcionamos como casal, pelo menos funcionamos como amigos. Por favor, vá. Anne ficaria contente.

Marie devolveu à mesa a taça de vinho que estava encaminhando à boca. O pássaro que serpentinava arrogantemente sobre a cabeça do velho cão , agora também piava agudamente, para o desespero auditivo tanto de Marie, como de seu platônico amigo canino.

- Você vai se casar com ela?

- Sim. No fim do ano. - Martin tinha deleite em repetir que seria, afinal , no fim do ano. Como se fosse uma cronologia maligna para Marie, que indicasse a ela que em um número certo de dias ela teria, então, de admitir que havia perdido para Anne a conquista do coração de Martin.

- Veja só como a vida é irônica.

- C'est la vie, ma chérie Marie.

Ela segurou violentamente o pulso de Martin. Odiava ouvi-lo proferir aquela frase. Era a frase que ele costumava dizer logo após afirmar: "Eu te amo. Fortemente. E nunca vou deixar de te amar. C'est la vie, ma chérie Marie." Era a frase que ela mais adorava quando estavam juntos, e agora, era a frase que emoldurava a mentira, o engano, a revolta.

- Nunca mais diga essa frase perto de mim de novo, seu estúpido.

Martin, que agora adquiria uma coloração púrpura, libertou seu pulso das mãos de Marie e ajeitou a gravata nervosamente. Agora era ele quem examinava a retina da moça:

- É por isso que larguei você. Sempre inteligente, sempre esperta, sempre com o melhor dos caráteres e a melhor das intenções. Isso me cansava profundamente.

- Como é?

- É isso mesmo. Eu me cansava em ver o quanto você sempre quis ser perfeita, em vê-la progredir, enquanto tinha de permanecer afogado na sua medíocre sombra.

Martin começava a piscar freneticamente , exatamente como fazia sempre que ficava nervoso. Marie levantou-se, e já segurando a bolsa, observou que Martin , com o rosto excessivamente vermelho, já tinha garfo e faca em punho, mesmo com o prato vazio à frente, como uma criança tola que espera ardentemente pela comida.

- Você não estava afogado na minha "medíocre sombra". Você se afogou na própria mediocridade. E continua debatendo-se na água todos os dias. - e apagou o cigarro no prato vazio de Martin.

Segurando-se para não derramar um grito choroso , ela caminhou lentamente até a banca de gibis à sua frente. Comprou uma revista de Asterix e Cleópatra, enquanto tinha a desagradável sensação de estar sendo observada por Martin do outro lado da rua. Enquanto pagava a revista, sentiu um pequeno peso macio repousar sobre sua sandália. Olhou para baixo. O cão de olhos moles encarava-a com sua moleza costumeira, com sua pata machucada sobre o seu pé. Depois, como se estivesse verdadeiramente constrangido em observá-la, ele desviou o olhar, e tornou a encarar o asfalto.

Marie soltou um alto soluço e duas grossas lágrimas caíram de seus olhos. Deixou o troco com o vendedor da banca, e colocou o velho cão no colo. Segurando o com um braço e a revista com o outro, correu arfando em direção ao ponto de ônibus, até conseguir entregar a revista ao franzino menino indiano. Fitaram-se , enfim , os três. Todos com os olhos moles.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Por que o futuro da humanidade é assexuado


Baseado nos tempos "moderninhos" e sem barreiras sexuais que estamos vivendo, um dia um amigo me disse acreditar que o futuro da humanidade é bissexual. Ninguém será de ninguém, a orgia será generalizada, todos sairão com todos e o compromisso e o relacionamento sério serão apenas notas de rodapé de textos de antropologia e sexualidade, tal como as famosas alcoviteiras da era medieval. Eu, por outro lado, acredito exatamente no oposto : o futuro da humanidade é assexuado. E tenho vários argumentos para isso.

É fato que existem muitíssimo poucos tabus hoje em dia. Talvez, em nível sexual, não haja mais nenhum. A humanidade já viu de tudo - ou 99% de tudo, seja do pior ou do melhor. Hoje existe espaço para qualquer bizarrice em termos de relacionamento , basta você procurar no lugar certo (ou seria o errado?) . Então, discussões a respeito do assunto, que antes poderiam alarmar pessoas por dias e dias, hoje são escancaradas em telejornais às 20 h , horário em que crianças ainda estão acordadas, e só conseguem causar sono e tédio nas famílias. Ninguém se abala se a filha de 07 anos está vendo uma professora de pole dancing instruir as suas alunas na televisão. Ninguém se choca. O sexo virou rotina. Sexo, sexo, sexo.

O movimento feminista e o sexandthecityista também colaboraram para que qualquer erotismo se tornasse um perfeito enfado. Todas agora são muito loucas e fogosas e transam na posição origami psicodélico, é só você querer. Todas são beldades, também. O último Carnaval foi um ótimo exemplo para mostrar que hoje todas as mulheres têm silicone, todas são loiras, todas são malhadas , todas são bronzeadas e todas são "gostosas". Um exército de gostosas. Bundas e bundas que passam em frente a olhos masculinos bocejantes. Corpos e rostos todos iguais. Perdeu-se a individualidade do corpo: aquela em que uma tem o seio pequeno, outra os cabelos mais crespos, outra uma pele mais branca. Todas - e todos, já que a banalização corporal atingiu a classe masculina também - têm as mesmas curvas e os mesmos cabelos. O mesmo cérebro. A mesma conversa. Como disse um professor meu, hoje em dia todas são tão identicamente perfeitas que para ele a charmosa é aquele com um dente um pouquinho torto, a sexy é aquela com o cabelo crespo, a bonita é a com um corpo normal, e não masculinizado de tanta academia. Um exército de mulheres gasta quantias obscenas de dinheiro para tornar seu corpo cada mais libidonoso, mais ousado, mais desejável, mais sexy. Fico pensando se não é tedioso para um homem ir a uma festa e ver 90% das mulheres mostrando 95% das pernas e 100% do decote. Os seios deixam de ser o mistério a ser revelado e viram apenas uma carne cotidiana. Mais sexo, mais sexo, mais sexo.

As relações, por sua vez, tornam-se cada vez mais fúteis e efêmeras. Existe pouco interesse em manter um relacionamento sério e com sentimento. Mulheres , querendo ser modernas ou fingindo ser, afirmam que não querem nada além do sexo. Homens , aproveitando o espaço que as mulheres proporcionam, também não vêem razão para perder tempo com um relacionamento. Surgem relações de 2, 3 dias. Enjoa-se fácil. Namoros são terminados porque "ela não transava do jeito que eu queria" ou "ele não quer transar comigo todo dia". O sexo é a prioridade, e não o complemento do relacionamento. É ele, de novo. O sexo.

A obsessão pelo sexo tornou-se tão doentia que é difícil hoje em dia manter um papo decente e minimamente cerebrado com alguém por aí. É difícil encontrar uma pessoa do sexo oposto que realmente queira uma conversa desinteressada - porque muitas vezes, quando essa conversa ocorre, todos nós já sabemos qual é o interesse : é o sexo. É tremendamente complicado achar um único alguém que tenha um papo suficientemente culto e uma vida deliciosamente vivida para você voltar para casa e pensar "Puxa, como ele é interessante." Todos são iguais. Todos são a mesma genitália burra de sempre. Pênis burros e vaginas burras que vão a micaretas e fazem a mesma dança do "Oi tudo bem qual seu nome o que vc curte costuma sair quantos anos você tem " para se acasalarem, se despedirem e procurarem uma outra genitália burra com a qual possam acasalar. São conversas e pessoas tediosas que não me despertam o menor interesse. É doloroso olhar no calendário e pensar : "fazem tantos meses que não encontro alguém de valia". Aquele alguém que coloca um pingo de tinta vermelha em pilhas e pilhas de folhas em branco. Hoje as folhas brancas se acumulam. Elas gritam "SEXO!" cegamente, e nada mais conseguem enxergar.

É por isso tudo que acredito que o futuro da humanidade é assexuado. Assexuados célebres como Morrissey, Moby e o nosso querido Sheldon Cooper têm justificativas indiscutíveis dos benefícios do não-envolvimento com qualquer ser humano. Não sou partidária do assexualismo e ainda gosto de homens, e ainda estou interessada em relacionamento com eles. Mas é muito lógico e compreensível ser assexuado. Sex is overrated. Existem tantas coisas mais incríveis do que o sexo pelo sexo no mundo, por que raios ele deveria ser assim tão superhipervalorizado? É isso que defendem os assexuados. Eles não se interessam no sexo. Sexo é para os fracos. Apenas uma humanidade desesperada por prazeres carnais se entrega a eles, ao invés de se dedicar às artes, à ciência e a causas filantrópicas, de forma integral e voluntária. Os assexuados não são fracos assim.

Portanto, levando em conta o banho que levamos todos os dias de conversas sobre sexo, reclamações sobre sexo, programas sobre sexo, lingerie, camisinha, strip tease, como fazer seu homem enlouquecer na cama, como dominar sua mulher em 10 dias, como deixá-lo louco , como deixá-la subindo pelas paredes, e peitos siliconados, e bundas avantajadas, e requebro, e rebolation, e aumente seu pênis em 10 dias, e viagra, e himenoplastia, e isso e aquilo, etc e tal, continuamos atordoados de tanto sexo, sexo, sexo. Sentindo sono, sono, sono.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Sobre o apego.



Existe um sentimento que, para mim , é talvez mais intenso que o amor. Mais profundo que a paixão. Não que ele seja mais intenso no grau em que ele balança as emoções, tremelica a alma, e colore de vermelho os pensamentos. Seria algo que o inglês chama de infatuation - mas, sem a rapidez que a definição da palavra mostra, esse é um sentimento que vem devagar, toma conta de nós como areia movediça, uma teia sentimental. Esse sentimento é o apego.

O apego não surge de repente. Ele aparece com os anos. Diferente do amor, que é algo sublime, Divino e incontestável, que pode surgir automaticamente (no caso amor maternal , paternal e fraternal) ou com o tempo (em relacionamentos duradouros) , e também diverso da paixão, que é repentina, arrebatadora e dínamo de loucuras, o apego é assim: chega em sua casa silenciosamente, com sua pequena maleta, e vai espalhando seus pertences pela sua mobília. Você nem nota. Dentro de sua casa, pessoas entram e saem, convidados derramam vinho no tapete - e ninguém nota as fotos que ele pendurou nas suas paredes. Ele dorme na sua cama, sem que você saiba. Ele faz tranças nos seus cabelos enquanto você sonha acordado, sem perceber. Mas um dia , quando você se olha no espelho após ter tomado sua xícara de café, vestido de pijama e bom senso , você pensa - eu me apeguei - e ZÁS , eis que surge ele, com uma imponente máscara preta de carnavais venezianos. O APEGO, em negrito e maiúsculas.

Inicia-se então uma jornada de "aperto no peito" (existe outra definição melhor para "aperto no peito" do que "aperto no peito"? Creio que não.) e saudades. Porque o apego é assim. Ele dói. Ele é uma coleira invisível que te amarra a pessoas, fatos, lembranças, objetos, manias irritantes suas e dos outros também. Por mais que não se goste daquilo ao qual se é apegado, não adianta - você se apegou. E como a raposa de Saint-Exupéry já afirmou sabiamente em O Pequeno Príncipe , "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". Tal frase não poderia definir melhor essa sensação de angústia, dor, aprisionamento, delícia e nostalgia que é o apego. É uma flor que você é obrigado a regar todos os dias, por vezes regando com carinho , outras vezes com desgosto.

E é devido a esse apego, a essa algema que une nossos corações a pequenas migalhas de eternidade espalhadas pelo cotidiano que nos faz manter no armário aquelas caixas abarrotadas de cartas. A guardar o frasco vazio daquele perfume antigo. A continuar passando por aquela rua, só para ver o jardim tão bem cuidado daquela senhora. A permanecer junto a alguém, mesmo que as coisas não estejam tão bem , mas simplesmente porque você não consegue se imaginar acordando sem ver ao seu lado o travesseiro docemente amassado por onde ela se deitou. A continuar morando com ela, porque é aquela espuma de shampoo que ela deixa no chão do box que te faz sentir vivo. A permanecer unida a ele, porque são as mãos dele, magras, segurando o volante, que fazem você olhar para as estrelas e agradecer a Deus e ao Infinito por estar ali. É aquela imagem dele , sorrindo, recolhendo com aquelas mãos o pó de café que ele derramou sobre a mesa que te fazem suspirar de júbilo nos momentos à sós.

Piegas , banal ou sensato, o fato é que a verdade, para mim, é só essa. Quando se tem apego, não existe mais a carne puramente carne, o desejo simplesmente desejo, o amor somente amor . Você cativou a raposa. O príncipe te cativou. Um liame , curto e imperceptível, te liga àquelas memórias, àquelas pessoas, àqueles rostos. Anos se passarão, e mesmo se o contato com essas pequeninas almas ficar perdido , elas estarão lá, embalsamadas nas nossas humildes sinapses. Um segredo: você pode ter desaparecido da minha vida, mas com as minhas lembranças, ah, eu olho para seus olhos todos os dias...

É o apego que, muitas vezes, deixa ainda mais árida a dor de um fim de relacionamento. Quando o caminho do casal se bifurca, resta o medo: "Eu nunca mais vou vê-lo? Nunca mais conversaremos?" Não é a vontade de voltar para os braços para a pessoa. Não é desejo. Porque o apego é a revolta. É a inocente indignação de não poder, nunca mais, ter com ela os mesmos momentos que haviam antes. Nunca mais ver comédias antigas na televisão. Nunca mais brigar pelo último chocolate. Nunca mais ver o sorriso dela ao entrar no seu carro. Nunca mais conversar com ela, tagarelar com ele, a menor banalidade que seja. Não saber mais como anda a vida dele. Os dias dela. Se está contente. Se cortou o cabelo. Se aquele arranhão sarou. Meu Deus, nunca mais ver a cicatriz daquele arranhão. Nesse momento, o arranhão torna-se mais monumental que as pirâmides do Egito. O arranhão, naquele joelho, guarda nele todas as suas saudades. Todas as suas vontades. Pessoas que não voltam mais. Tesouras que não voltam atrás.

Certa vez pedi um cappuccino em um balcão, sorrindo. E o barista me disse: "O café vai bem com um sorriso." E ao me entregar a xícara de café, notei que ele havia desenhado na espuma um pequeno sorriso, e embaixo, lia-se: SMILE. Aquele pequeno presente, perecível, desmanchável em apenas uma volta com a colher, foi, para mim, a tradução do apego. Em um só gole, o sorriso e a palavra se desmanchariam em café e leite, e aquele momento terminaria tão logo quanto a bebida. Pudesse eu eternizar aquele café! Fosse aquilo um flerte ou uma mera gentileza, o barista jogou ali em minha xícara pequenas migalhas da eternidade dele , que acabaram perdidas em espuma. Disse a ele o quanto tinha achado tudo aquilo belo e doce, tomei a minha bebida, paguei, e fui embora, com a quase certeza de que nunca mais o veria novamente, tampouco a espuma.

E tudo perdeu-se em espuma. A espuma do leite, a espuma do mar, a espuma do shampoo, a espuma do beijo. Nesse mundo de espumas, somos todos príncipes e raposas algum dia. Apegados àquele arranhão.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Por quê?

Ei.
Por que eu tive de te conhecer?
Por que eu tenho de te amar?
Por que, quando eu te amar, eu tenho de sofrer?
Por que eu tenho de te querer?
Por que nós sonhamos juntos,
e criamos nossos reflexos no outro,
pensando que nós éramos espelhos,
imagens de um ego ainda rouco?

Por que quando nos amamos
não criamos um teatro de cômicos,
de sátiros atores da noite,
damos cores aos nossos paraísos,
esquecemos do asfalto e do preciso,
vivemos na areia dos doces contos?

Por que você trouxe suas bonecas quebradas,
e não jogou os cacos de louça fora?
E assim, com caco por caco,
foi cortando nossos laços,
sangrando o sentimento embora?

Por que esse meu batom colorado,
me lembra de você tão loucamente?
Por que eu te gosto assim, tão imperfeito,
tão mentalmente intruso, tão roubado e tão ladrão,
tão rabiscado no meu rubro tom?

E você caligrafou no meu corpo
eu te disse que foi pouco a pouco
escrevemos um poema de loucos
um amor de caboclos
um delírio de poeta
o idílio dos profetas
o clichê delícia e banal
mas você foi vírgula, e eu, ponto final.

sábado, 14 de novembro de 2009

A chuva sagrada




A chuva caía na mata ardendo.
A chuva caía, e era só esse som que se ouvia na mata.
Atrás das árvores, com seus olhos bem negros
você me via de longe e eu te olhava.
Veio um pássaro piando, piava a agonia da mata.
Foi molhado o seu canto, foi seco o seu pranto.
O pranto seco na chuva da mata.
O pranto que seca e a mata que molha.
A chuva sagrada e a fruta gogóia.
Vamos pisar descalços nas folhas molhadas
No frio das sombras
Na estrela da noite.


Porque quando te vi na sombra,
quando beijei a noite,
eu sabia bem longe,
que te queria na mata,
eu queria seu assobio,
e você queria meu pio
descalça contigo nas folhas gogóias.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

As sombras.




Sob o luar entrecortado pelas grossas copas das árvores, ela sentia a sola de seus pés repousando sobre as folhas secas. Cada folha craquelava alto, um som surdo de folha seca perdido na escuridão da mata. Cada folha era um grito no escuro.

Acompanhada apenas pelo canto de uma ou outra ave notívaga, ela sentia o frio gelado envolverem seus braços nus, mas com um objetivo em mente, caminhava, olhando para o solo, deslizando suas mãos sobre os troncos das árvores que a encontravam pelo caminho.

E em sua longa trilha que levava todas as noites para aquele que era o palco dos seus sonhos, ela ouvia seus pés pisando em folhas, encostando em gravetos, acariciando flores. Seus pés já eram abituados à rotina de folhas, gravetos e flores mesmo não tendo grande experiência, mesmo não sendo sábia, mesmo não sabendo acreditar.

E perdida, pequena no meio do mato, ela já pensava que iria saborear as suas lágrimas , derrotada, na volta para casa. Foi quando ela a viu: vistosa, brilhante, etérea, eterna, chorosa e risonha sobre as copas das árvores. Sob o manto prateado de sua musa, ela, ainda tão garota e tão serena, sentiu grossas gotas de devoção deslizarem sobre seu rosto. Sentindo o doce sal em seus lábios, ela caminhou para mais perto do lago, onde a sua musa jogava seu manto luzidio sobre a infalível água sedosa. A garota fechou os olhos tamanho era seu brilho, e ela lampejava fortemente, ofuscando todas as esperanças, rasgando todos os poemas, sangrando qualquer coração porque ela era, enfim, o destino de todo desejo.

E quando menos podia perceber, a menina já havia seus pés envoltos pela água gelada. Ela ainda mantinha seus olhos fitados sobre a diva argêntea que reinava no céu. Ela ainda chorava. E antes que pudesse cair ao chão com o peso de suas lágrimas, ela deitou-se na relva com os pés ainda molhados e observou seus grandes sonhos, todos no céu, brilhando em cima de seu peito aberto. Sentindo a terra encharcada perder-se por entre seus dedos, ela sentia a solidez da lama, do barro que havia sido a origem de TUDO, derreter-se como verdade , esfriando em suas mãos. Ela tateava o solo como se este fosse veludo, e ela sabia, que naquele monte de concretos em que os louros moravam, naquela mundo confuso que seus olhos não haviam alcançado mas que seus ouvidos conheciam, que seda ou organza algum eram comparáveis à grandeza daquele toque sobre aquele chão.

Engoliu cada gota de seu próprio sal como se todas elas fossem uma pequena panacéia para sua vida, abençoadas por sua Salvação de Prata que sorria ao longe. Cada gota descia morna dentro de seu corpo, deslizando leve como pequenas almas, aquecendo o espírito, escorrendo a dor.

E quando já estava prestes a derramar longos soluços ao ouvir os lobos ao longe, percebeu que a doce luz de prata agora confundia-se com o clarão vermelho e intenso das tochas do bando. Eles haviam vindo buscá-la , desesperados com sua ausência , e ela , temerosa por ter de voltar à crudez cotidiana, agarrou inutilmente uma pequena folha de relva, como se esta pudesse amarrá-la às suas esperanças. Desejou ardentemente possuir uma canoa, e poder remá-la, remá-la até estar no meio do lago e banhar-se com o brilho total e intenso de sua musa crepuscular, sentir a eternidade de sua luz, a iluminação que ela trazia aos seus mais loucos sonhos. Mas, imóvel diante de tantas tochas ardentes, ela contentava-se em observar a doce salvadora em meio às estrelas, às doces lágrimas de sua heroína que eram chamadas estrelas, e que vez ou outra, quando caíam, os louros chamavam de "cometa". Ela deslizava seus pés sobre a fina borda das águas que ainda estava próxima de suas pernas, sentindo seus tornozelos molharem, esperando que as mãos do bando levassem-na para longe.

Foi quando ela sentiu um beijo terno repousar sobre sua testa, e uma voz virando-se para eles: "Vão. Eu voltarei com ela". Ele deitou-se ao lado dela, e ela, cujo coração quase serpentinava em direção à musa, de tão rápido que pulsava, engoliu a vontade de derramar o soluço que estava por vir. Ele abrandou , com sua mão quente, a gelidez de sua mão de menina , e ambos sentiam o toque da sábia terra sobre suas peles. E ele, imerso pelo encanto incontestável daquela Branca Amazona e de suas lágrimas-estrelas, apertou mais fortemente a mão da menina, ambos submersos pelo doce feitiço da paladina prateada.

Então os dois, atados pelo toque de seus dedos, embarcaram juntos numa jornada de percepção da própria pequenez, da maravilha de ser diminuto perante o infinito, do privilégio de ter a desimportância perante o Céu e a Terra. Sentiam o minúsculo pulsar de suas almas perante a vindoura aurora, e antes que a musa então partisse com seu aceno esvoaçante, ele atirou-se à tentação de dizer:

- Meu desejo era vir vê-la todas as noites.

E a menina, então, ao ouvir palavras tão gêmeas das suas, liberou todo e qualquer soluço, seu choro era o urro, o grito da noite, o desespero profundo da noite, cortando o cenário negro e inebriante da escuridão, e ele sentiu com suas mãos o grito dela, e num desespero e maravilha resolutos, ambos preferiram acalmar o pranto e apreciar os poucos segundos que restavam da epifania da divina Musa...

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A Noite.



Te vi no molhado da noite,
No negro da noite,
No escuro da noite.


Você estava no fim da rua, olhando-me de longe, as mãos tão distantes, os olhos chorando.
Na rua fria, a chuva caía calada. E eu sabia. Você ao longe, você chorando, sem derrubar uma só lágrima, mas caindo aos prantos.
Olhamo-nos juntos, juntando retalhos de nossas sombras, jogando sorrisos profundos, tentando entender o mundo.
Sua lágrima escorreu em um segundo, e eu corri em sua direção, com toda e sem nenhuma pressa, eu corria pisando nas poças, sujando sapatos e quebrando saltos, eu corri com os sonhos mais altos, eu corri para cair nos seus braços.
E em um nada construímos o tudo, porque agora o infinito importava.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Faz assim, ó : NÃO ENCHE.



Não sou obrigada a aguentar suas manias.

Não sou obrigada a ser do jeito que você quer que eu seja.

Não sou obrigada a gostar de você.

Não sou obrigada a rir das suas piadas.

Não sou obrigada a ter um namorado na hora em que você acha que eu devo ter um.

Não sou obrigada a ficar solteira na hora em que você acha que eu devo ficar.

Não sou obrigada a ficar com você, só porque você acha que eu quero.

Não é porque eu sou legal com você, que eu quero ficar com você. Eu só fui legal.

Não é porque eu sou solteira, que eu sou obrigada a ficar com o primeiro cara que aparece. Ou o segundo. Ou o terceiro. Ou aquele que me dá bom dia todo dia com um café na mão e pergunta para que andar eu vou , eu também não sou obrigada a ficar com ele.

Porque não é porque eu sou solteira, que eu tenho que ter vontade de estar namorando alguém agora.

E não é porque eu sou solteira, que eu tenho que ter vontade de ficar com meio mundo em 450 baladas todo fim de semana.

Eu posso ser solteira e me sentir bem assim.

Eu posso ser casada e me sentir bem assim.

Eu posso ser do jeito que eu quiser, QUE EU NÃO SOU OBRIGADA.

Eu posso ser lilás, amarela, furta-cor, ter um pônei azul elétrico de lustre no meu quarto, que eu vou continuar NÃO SENDO OBRIGADA.

Então faz assim, ó:

NÃO ENCHE.

domingo, 28 de junho de 2009

,


ei,
eu nunca quis saber qual era a verdade,
mas ela veio à tona,
e eu a amei de verdade,
foi quando você me ligou e disse,
de voz rouca e tom baixo,
que não poderia fazer nada,
e quando você o fez,
e apareceu em casa,
e com seu hálito de menta,
me disse tudo aquilo,
e fez de tudo um pouco,
e amou como um louco,
eu sorri chorando,
você chorou sorrindo,
e soltou um longo suspiro,
e me pediu outra,
e eu te dei a outra,
eu te pedi aquele,
e você me deu aquele,
e você nunca esqueceu,
e me lembrou de novo,
que era apenas a hora,
de não se jogar fora,
foi quando na demora,
você olhou profundo,
e disse num segundo,
que foi a mais pura verdade,
te mostrei as estrelas
e te contei a vontade,
e foi por isso, é só por isso,
que você resolveu QUE



(eu nasci para um amor profundo e você é a profundidade.)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Índias



Existe uma mulher que ainda é livre no mundo.
Essa mulher é a índia.
É a única mulher que ainda não se perdeu na neurose de ser a mais bonita, a mais atraente, a mais sexy , a com melhor vida sexual, a mais gostosa, a mais desejada , a mais qualquer coisa.
Elas apenas vivem, e expõem seus corpos livremente, corpos estes anos-luz longe de serem o corpo de uma Jessica Alba, e por isso mesmo tão perfeitos. Vivem sua naturalidade plenamente, sem qualquer malícia, sem qualquer competição débil e invejosa por um macho . Apenas vivem. Suas pinturas , seus cabelos, estão mais atrelados a uma tradição tribal do que a um intuito de atrair o sexo oposto.
Porque as índias, que não foram corruptas pela brutalidade da cultura ocidental, sabem que , antes de serem objetos sexuais masculinos , elas são MULHERES. Mulheres que devem participar da sociedade, que devem expressar suas opiniões na comunidade em que vivem , trabalhar, viver em coletivo , INFORMAREM-SE A RESPEITO DE TUDO QUE PUDEREM , e não viverem presas a um mundinho fútil e infeliz em que os assuntos giram a respeito do cara que elas vão pegar ou já pegaram, da chapinha que vão fazer ou já fizeram , da menina bonita da sala ou da menina ridícula da sala.
Todas as mulheres ocidentais deveriam nesse momento tomar vergonha na cara e verem o quanto são ridículas, o quanto são imersas em inveja , competição e desespero. O quanto saem de casa desesperadas para serem notadas pelos outros homens, mas, principalmente , pelas outras mulheres. Enfim, o quanto são medíocres e cegas, pois não enxergam o quanto estão presas às suas próprias vaidades, próprios desesperos, ganâncias e narcisismos.

Existe uma mulher que ainda é livre no mundo.
Essa mulher é a índia.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Leis que PRECISAM ser criadas


Ai. O sistema legislativo desse meu Brasil é tão inútil, tão acéfalo, tão sádico. Ficam criando leis permitindo sacanagens e impostos, mas coisa útil que é bom, nada. Minhas sugestões para o Governo Federal são:



1. Proibir escadas em baladas e festas open bar

TENSO! Escada em balada é altamente TENSO! Por 3 motivos :

1. baladas e festas open bar são reduto de gente alcoolizada, e álcool + escada não combinam.

2. salto alto + escada + escuridão total = queda louca e insana

3. ter de ficar subindo e descendo escada num lugar em que você tem de RELAXAR faz mal pro meu sedentarismo

2. Proibir sonzeira "sou praieiro sou guerreiro" nas ruas durante noites de sábado

Desculpem-me , mas eu não sou obrigada a ficar ouvindo psáááái trance , nem o "AH QUE ISSO ELAS ESTÃO DESCONTROLADAS" muito menos o "I'll be your umbrella ELLA ELLA Ê Ê Ê" do carro ao lado, quando estou indo sair à noite.

3. Aliás

Tirar a música "Umbrella" da Rihanna de circulação, pelo amor de Deus!

4. Proibir a combinação shorts branco curtíssimo, transparente e justo + saltão plataforma na beira-mar

Como Julia Petit já disse sabiamente, na praia não existe combinação mais ridícula e potranca do que essa.

5. Proibir a produção de roupas laranja

Fantasia de gari não é legal.

6. Todo brasileiro tem direito a uma hidromassagem

E tenho dito.

7. Obrigar a volta do Lado B , Covernation e Barraco MTV.

Porque só nessa época era legal assistir à Êmitiví.

8. Abrir mais emissoras de rádio voltadas pro rock.

Brasil 2000 virou rádio tocadora de hardcore, e a KISS Fm fica tocando Rush o dia todo. E pensar que nos EUA tem uma rádio voltada só pra Punk, outra só pra New Wave... Primeiro Mundo, né garele.

9. Abrir mais salas de cinema culturais em outras cidades.

É meio cansativo você ter de ir pra São Paulo pra assistir "Viagem a Darjeeling" e voltar.

1O. Toda cidadã que rale loucamente estudando numa universidade ferrada tem direito a um sapato , um perfume importado e uma peça de roupa do Alê Herchcovich por mês.

Essencial.

E pra terminar: música do ABBA rolando solta, sempre.

Com papel alumínio enrolado no corpitcho, que é luxo.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Quando tudo era muito mais fácil



Antigamente era assim: se o mocinho estava a fim da mocinha, após muito observá-la , ele a convidava para dançar. Papo vai, papo vem, um drink pago ali , outro aqui, pintava um "clima", e ele pedia o telefone da garota. Ligava no dia seguinte, combinavam um suquinho na lanchonete, beijavam-se e pimba! começavam a namorar. Se você quiser, pode substituir o suquinho por um filme do Antonioni , no cinema. E eram felizes para sempre. Fim.

Hoje em dia é assim: se o mocinho está a fim da mocinha, antes ele analisa friamente se ela é atraente o suficiente ou se não é melhor ele investir nas outras mocinhas ao redor. Se ela for atraente o suficiente, ele vai conversar com seus amiguinhos e ver se eles aprovam a mocinha. Se eles aprovarem a mocinha, o mocinho pede para um de seus amiguinhos "chegar" na mocinha, porque ele tem medo de levar um fora na própria cara. Quando o amiguinho do mocinho chega na mocinha e avisa que o mocinho está a fim dela, ela faz um charminho e diz "aaah peraííí depois você vem aqui e fala comigo, vou pensar , tá?". Esse "vou pensar tá?" pode ser traduzido como "vou perguntar pras minhas amigas se elas não acham o mocinho um babaca vergonhoso" .
Depois das amiguinhas da mocinha aprovarem o mocinho, o amiguinho do mocinho volta a falar com a mocinha e ela diz que tudo bem, que vai ficar com o mocinho. O mocinho chega perto e começa a conversar com a mocinha , papo vai , papo vem , eles se beijam , ficam a noite inteira, com o mocinho e a mocinha procurando olhares de aprovações respectivamente dos amiguinhos e amiguinhas e na hora em que a mocinha vai embora, resta a dúvida na cabeça do mocinho: "peço o celular ou o MSN?" O mocinho, se pedir o celular, planta uma dúvida na cabeça da mocinha: "peço o celular dele de volta ou não?" . A mocinha então pede também o celular do mocinho.
Os momentos seguintes são de uma angústia maior que livro do Albert Camus. O mocinho, voltando da balada, é questionado pelos amiguinhos se vai ligar para garota. Ele responde um "aaahhhh duhhh hummmm... talvez" e seus amiguinhos dizem "aaah você não vai ser otário de ficar com ela né? amanhã a gente vai numa rave que vai bombaaaar de menina" e ele pensa "aaah... ligarei só um dia depois da rave".
Enquanto isso, a mocinha está tendo uma crise de NERVOS em sua casa. ELE VAI LIGAR OU NÃO VAI ELE VAI OU NÃO VAI ELE VAI OU NÃO VAI? Chora, desabafa com as amigas, fica irritada, faz rascunho de 3674638 torpedos , entra num dilema LIGO OU NÃO LIGO LIGO OU NÃO LIGO LIGO OU NÃO LIGO, e , num golpe derradeiro , ela liga para o mocinho no dia seguinte, às 23.30 da noite. O mocinho está no carro dos amigos a caminho da rave:
- Alô?
- Oi mocinho... é a mocinha da balada de ontem. Tá ocupado?
- Tô nada , fala . (música psytrance no último volume ao fundo)
- Tô ouvindo um psy loouuco aí... onde você tá?
- Pô, tô em casa, vou ficar aqui sozinho... fala gatinha
- Então, gostei de falar com vc ontem...
O mocinho percebe que a mocinha não está para brincadeira e que o páreo vai ser duro para se livrar dela. Para cortar logo a onda da menina , ele responde:
- Olha, que tal se a gente fosse amanhã prum barzinho, um cinema , o que você acha?
- Humm... acho legal !
- Então gatinha, eu tô ocupado agora resolvendo umas coisas pra minha vó, mas eu te ligo pra gente combinar , ok?
- Ok! beijo! tchaauu!

A mocinha ficou esperando o telefonema. Adivinha se ele ligou? Nããão. Sabe por quê? O mocinho contou do telefonema pros amigos e eles disseram : "Aveeee menina grudenta , você deu uns beijos nela e ela já tá assim? CAI FORA CARA!".
O mocinho não ligou, e a mocinha ficou louca de ódio, achando que não devia ter ligado para ele.
Um dia, quando o mocinho estava bêbado e encalhado , ele resolve ligar para a mocinha, só de farra, convidando-a para um bar. Com o ego ferido, ela nega o convite. Aí num dia que ela está bêbada e encalhada, ela se arrepende de ter negado o convite. Aí ela pega e manda um torpedo e então bláblálbálbál´bla´blawpjri4jio, o ciclo recomeça, bla´bla´bla´blálb , etc etc etc; Solidão, solidão, pegação, solidão, pegação, encalhamento perpétuo e angustiante.




E depois dizem que a modernidade simplificou as coisas.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Porque você precisa amar Wander Wildner



Existe um cara, com voz rouca, meio ébria, que canta um bregapunk de primeira , romântico e revoltado, triste e empolgado. Seu nome é Wander Wildner.
Não estou recebendo nenhum cachê do rapaz pra fazer propaganda dele (quem me dera!) mas o fato é que ele me impressiona a cada dia que passa. Até mamãe já ouviu e achou que ele tem um quê de Raul Seixas. Enfim, ele é o máximo.
Afinal, que outra pessoa cantaria sobre a vida crua da cidade grande como ele canta? Quem retrataria São Paulo e a Consolação tão bem como ele retrata? Quem falaria da vida noturna do centro de SP , de suas angústias e atribulações, tão intensamente como ele? Quem falaria algo tão lindo do tipo "se pudesse estaria ouvindo o seu coração..."? Só ele. Wander. Wildner.
Wildner; Wander é talento. Ele consegue escrever músicas fossa e músicas anti-fossa.

Fossa clássica: BEBENDO VINHO
Eu vivo sozinho e apaixonado não tenho ninguém aqui do meu lado
Meu cachorro Vênus foi roubado, fiquei um pouco preocupado
Vou me entorpecer bebendo vinho, eu sigo só o meu caminho
Vou me entorpecer bebendo vinho, eu sigo só o meu caminho


Anti-fossa clássica: ADEUS ÀS ILUSÕES
Sei bem não fui teu príncipe encantado
você tão pouco foi minha bela adormecida
Por tempo foi bom pensar que tudo isso
podese ser eterno como num conto de fadas


Wander é bregapunk sentimental e revoltado. Ele é fã de Waldick Soriano e tem todos os discos dele! Quer mais charme que isso? Ele tem uma rede no meio da sala! Quer mais charme que isso? Ele faz show nas baladas e é super simpático com todo mundo, e se esbarra de levinho em você, pede mil perdões. Quer mais charme que isso? Ele veste camisa estampada de cetim e tá luxo. Quer mais charme que isso? Ele às vezes aparece no CB só pra tocar Iggy Pop a noite toda. Falando em Iggy, ele é bem o que li uma vez num texto que uma moça escrevia : "Wander é daqueles tipos de cara à moda antiga pelo qual as meninas se derretem - aquele que encera o carro vermelho no domingo, ouvindo Iggy Pop o dia todo".

Wander é isso e muito mais. Tudo na música dele vale a pena.
Wander , eu tenho uma camiseta escrita EU TE AMO!

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Cartas na mesa



Ei, eu me lembro de você.

Eu me lembro de você. Lembro de você atravessando a calçada e me sorrindo. Lembro do seu cigarro e do seu chiclete de menta, e do sopro do fumo que você soltava rindo. Quando a gente andou entre aqueles prédios, eu lembro de você ter dito que queria um café. E a gente se enfiou num cubículo qualquer cheio de poltronas, nos entregando a uma conversa cafeinada e sincera. Eu me lembro quando você ficava uma fera.
E a gente imaginava festas e grandes eventos sociais que poderiam rolar desde pracinhas desertas a museus nacionais. A gente tinha tantas idéias!
Sim, eu me lembro de você. Dos dois primeiros botões de camisa que você nunca abotoava, das mesas que você riscava, da tatuagem que você nunca fez. Eu me lembro!
Eu me lembro de nós dois embaixo da chuva, andando encharcados, porque correr não adiantava mais. Eu me lembro de nós dois nos despedindo e você olhando para trás.
Quando você apontava um passarinho na rua, eu sempre olhava rindo. Porque você gostava dos gatos pretos e queria adotá-los todos. Porque você sempre foi você.

Sim, eu me lembro daquele dia em que você me ligou, e num momento , tudo se apagou. Você disse , no bocal do telefone, que ninguém gostava de você. Que você era sem graça. Que você era substituível. Você disse : "Eu sempre te contei coisas e nem sei se você gostou. Acho que é só por educação que você sorri. Você é a pessoa que eu perdi."

Ah, eu queria te mostrar o livro do Tempo, o livro da Verdade Infinita e Incontestável para te mostrar que quando você chorava, eu chorei, o que você amou , eu amei, e quando você contava piadas, eu ri , rindo as risadas mais sinceras e escancaradas. Pela sua alegria eu ri . Pelo chiclete, pela chuva e pela sua xícara de café , eu sempre, sempre ri.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Não permita



Não permita que sua vida profissional prejudique sua vida social.

Não permita que seus preconceitos tomem conta de você.

Não permita que a solidão te destrua.

Não permita que o pensamento e o comportamento massificados te atinjam.

Não permita que apaguem sua personalidade.

Não permita que coloquem idéias medíocres na sua cabeça.

Não permita que façam você gostar de música ruim.

Não permita que a moça do Cinemark recuse sua carteirinha.

Não permita que coloquem castanha no seu sundae de morango.

Não permita que te ofendam.

Não permita que o seu coração não ame alguém.

Não permita não acreditar.

Não permita não permitir.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

A infância acabou.





A infância acabou.
Mataram-na. Ou estão matando-a pouco a pouco.
Dia após dia eu vejo pais e mães sendo cruéis e ignorantes o suficientes para encherem suas filhas de salto alto, saia curta, batom vermelho , e levá-las prum dia de beleza no salão em seus aniversários de 4 anos de idade. Achando "bonitinho" a filha ralando o Tchan.
Dia após dia vejo mães intragáveis instigando seus filhos de 8 anos , que ainda estão na fase AIQUENOJOQUEEUTENHODEMENINA a beijarem, a ficarem, a abraçarem , a imitarem o que o personagem da novela está fazendo. Inocentes e desinformados que são, acham que o que a mãe diz é certo, e acabam fazendo não por vontade adquirida pelo próprio crescimento, e sim porque é aquele pensamento do "mamãe me disse assim".

Porque graças a Deus que eu já fui criança. Ainda bem que na minha época ser criança não era ter celular , alienar os ouvidos num mp3 alucinante ou ficar criando perfil no Orkut. Não que essas coisas todas sejam ruins. Mas elas têm idade para isso.

E na minha época (e nem faz tempo tempo assim, huh?) a idade da infância era a idade de brincar, pura e simplesmente. E todas aquelas brincadeiras eram realmente um mundo mágico, uma alegria em cores pastéis. Você ia pra escola, e não havia obrigação nenhuma , o mundo era só você, seus amiguinhos e sua família. Você ia pra escola e tinha nojinho do sexo oposto, e se rolava uma paquerinha, era aquele bilhete que você fez pro menino e que um dia na feira de Ciências da sua escola a mãe do menino chegou na sua mãe e disse "meu filho guardou o bilhete dela até hoje". E isso era tão... ! E sua preocupação era apenas saber , quando você fosse pro parquinho, se o balanço ia estar vazio - se você ia poder comandar o gira-gira, se você seria a Princesa Ariel. Quando você chegava em casa era só tomar banho e ver aqueles desenhos todos - desenhos que me instigam até hoje, se eu pensar na profundidade que era um "Animais no Bosque dos Vinténs". Aquelas raposas eram todas muito sérias para mim. Elas sempre tiveram , na minha mente, um mistério filosófico sobre o que é na verdade a infância. As raposas eram o enigma. Era como se aquele mundo infantil, aquele mundo despretensioso e mágico, discretamente guardasse a resposta da verdadeira felicidade, aquela verdadeira felicidade que a gente vivia quando era pequeno e que agora esquecemos muitas vezes que ela existe, nesse estresse em que estamos inseridos.
Todos esses desenhos, um Peter Pan jogando pó sobre a cabeça das crianças, um fantoche colorido, um balanço, os lápis de cor , aquele boneco quebrado - são pequenos mistérios sagrados. Parecem de alguma forma, em seus olhares parados de brinquedo, guardar dentro deles um segredo: o segredo de ser feliz.

Porque na verdade eu sempre achei que toda felicidade tinha um pouco de criança. Tomar sorvete, ver televisão, dançar, brincar com o amigo, abraçar, sonhar, beijar, fazer tranças e puxar cabelo. Viajar pra Peruíbe ouvindo "Success" do Iggy Pop e vendo a borda do mar ao longe , sentir o vento no rosto e acreditar. E rir. Rir muito! Rir! Fazer pose. FANTASIAR.




Pensando bem, toda felicidade tem um tudo de criança.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Nem me choca mais.



Ok, notei que os posts desse Zine recentemente estão ficando sentimentais demais, não que isso seja ruim, porque sentimentos bons sempre são BONS, mas se a coisa fica muito sentimental, começa a ficar depressiva. E aí depressão não é legal. Então resolvi falar de outra coisa. Das coisas que não me chocam mais.

Se for apenas impressão minha , me avisem: as pessoas não estão ficando mais discretas? Menos "olha GALIÉÉÉRA COMO EU SOU ALUCINADOOO" ? Até digamos... sem sal? Eu ando reparando nisso , e isso é recentíssimo, devem fazer umas 3 ou 4 semanas, eu poderia até relacionar isso com o desastre aéreo, mas talvez seja viagem demais da minha parte. Enfim. Percebi isso porque eu estudo numa faculdade em que aproximadamente todos têm um tipo de problema psiquiátrico, e a maioria aqui deve ser histérico, bordeliner ou bipolar, mas de repente, todo mundo começou a ficar normal. Pessoas que eu via alucinando loucamente por aí pararam. Os comentários sarcásticos que eu ouvia dos sarcásticos de plantão sumiram. Até o pessoal que matava aula pra beber no boteco - acreditem! - está vendo aula. Algo está acontecendo.

E eu tenho uma teoria : é porque ninguém mais se choca com mais nada. Está tudo tão banalizado, tão saturado, que as pessoas não se impressionam mais com coisa alguma, e aí ficam amorfas (como meu amigo Paulo sempre diz) desse jeito. Por exemplo:

1. Pornochanchada e violência brutal na TV: nem me choca mais.
2. Mulheres vestindo calça com zíper de 2 cm e top de 1,5 cm : nem me choca mais.
3. Mulheres com o vestuário acima atendendo pacientes no hospital e se auto-denominando médicas : nem me choca mais.
4. Pessoas comentando "Putz ontem o Fulando usou Morfina no Conforto Médico" : nem me choca mais.
5. A quantidade absurda de moradores de rua ao redor da Av. Paulista: continua me deixando indignada, mas o descaso do governo nem me choca mais.
6. Aliás, o descaso do governo: nem me choca mais.
7. Comentários do tipo "puuutz cááára bebi muito ontem , acordei na calçada e alguém tinha vomitado em mim HAHAHAHAHAHA e eu descobri que o vômito era meu , ainda bem né UHUUU HAHAHAHAHA GLAMOUR DECADENTE, BABY!" : não me choca mais.
8. Certas babaquices que só os indies carudos da Rua Augusta fazem: nunca me chocaram, agora então me entediam.
9. Padarias 24 h lotadas , e lotadas de gente vestida como se estivesse indo na vernissage do Metropolitan de NY: nem me choca mais.
10. Miguxaxxx de 13 anos de idade que falam que são bissexuais : nem me chocam mais.
11. Pessoas que pagam psicólogo e acunpunturista para cachorro : nem me chocam mais.
12. Rock sendo cada vez mais desprezado e coisas do tipo REBELDES cada vez mais valorizadas: nem me choca mais.
13. Aliás, o único "rock" em evidência ultimamente é emocore. Isso nem me choca mais.
14. Gente acreditando no Lula : nem me choca mais.
15. O Iggy aí em cima, todo business man , sério e compenetrado: nem me choca mais. Porque quem já leu um pouquinho sobre o Sr. James sabe que ele é isso aí da foto, e não a loura enloquecida pré-punk que ele mostra nos shows dos Stooges. Tudo aquilo que ele fazia era para tentar chocar alguém.

E infelizmente, está tudo tão amorfo que parece que pessoas incríveis como ele e shows alucinantes como os dele também não chocam mais.