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quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Nicholas era...


mais velho que o pecado e sua barba não podia ficar mais branca. Ele queria morrer.


Os anões nativos das cavernas do Ártico não falavam sua língua, mas chilreavam na deles e realizavam rituais incompreensíveis quando não estavam trabalhando nas fábricas.


Uma vez por ano, forçavam-no, aos prantos e sob protestos, pela Noite Sem Fim. Durante a jornada, permaneceria ao lado de cada criança do mundo, deixando um dos presentes invisíveis dos anões ao pé da cama.


As crianças dormiam, congeladas no tempo.


Ele invejava Prometeu e Loki, Sísifo e Judas. Seu castigo era mais sombrio.


Ho.
Ho.
Ho.


Nail Gaiman

domingo, 30 de setembro de 2007

Shu


O beco está quieto e mal iluminado. O vapor proveniente dos bueiros dificulta a visão e preenche o ar com o odor fétido dos esgotos da metrópole. O silêncio congelante que rodeia o local é quebrado esporadicamente pelos ratos que se esgueiram entre as lixeiras à procura de restos de comida.

Do fundo do beco emana uma luz alaranjada e tremulante. No final deste corredor claustrofóbico se encontra um grande caçamba de lixo, com intensa chamas em seu interior. As grandes línguas de fogo lambem o ar freneticamente, fazendo o pútrido vapor acima das labaredas rodopiar numa dança fantasmagórica.

Próximos à caçamba, escondidos entre as sombras, dois jovens encapuzados observam fixamente as chamas. A penumbra que os rodeia não permite que seus rostos sejam vistos. Na verdade, somente devido ao brilho do fogo refletido em seus olhos podia-se dizer que sob cada capuz existia algum rosto.

Naquele momento os menos afortunados podiam notar uma pequena silhueta, quase hominídea, que pouco a pouco ia se definindo entre as labaredas. A figura se contorcia lentamente, acariciando as línguas de fogo ao seu redor. Os dois jovens observavam extasiados a dança hipnótica do homúnculo. À medida que a dança se intensificava, o reflexo nos olhos dos rapazes ia se tornando cada vez mais opaco e sem vida.

Em pouco tempo, a dança cessou. Agora, já não se pode dizer com certeza que sob cada capuz existe um rosto. Não há mais brilho nos olhos. Dentro de cada capuz, apenas um vazio negro. Vazia também está a caçamba de lixo. Lá não existe mais fogo ou Criatura. Mas Sua presença é inegável. Os fantoches sem rosto semearão Sua vontade e procriarão em Seu nome.

Ele está no meio nós.
..
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Obs: texto baseado em experiências do autor

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

AI SE SESSE




Se um dia nóis se gostasse
Se um dia nóis se queresse
Se nóis dois se empareasse
Se jutim nóis dois vivesse
Se jutim nóis dois morasse
Se jutim nóis dois drumisse
Se jutim nóis dois morresse
E se pro céu nóis assubisse
Mas porém se acontecesse de São Pedro não abrisse
A porta do céu e fosse te dizer qualquer tolice
E se eu me arriminasse
E tu com eu insintisse
Prá que eu me arresouvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Távez que nóis dois ficasse
Távez que nóis dois caisse
E o céu furado arriasse
E as virgem todas fugirsse


(Zé da Luz)


.

.Cabra macho cangaceiro e apaixonado é um perigo!

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Gosto de Morte



Está claro e morno. Apesar das lajotas alvas e da escuridão que nos cerca por todos os lados, tudo parece confortavelmente iluminado e aquecido. Meus semelhantes brincam descontraídos, saltitando pelas grandes placas brancas, despreocupados com o abismo negro sobre o qual elas flutuam. Música e risos preenchem o ar. Estávamos felizes.

Estávamos.

Frio. Tremor. Sou eu ou o chão? Não há chão. Também não há calor, luz, música ou semelhantes. Somente eu, o abismo e a figura escarlate que se eleva. Não posso ver seus olhos, mas sinto-os perfurando minha alma com a acusação: "Ele está morto, e você é o responsável.”

O gosto e cheiro característico entorpecem meus sentidos. Angustia. As milhares de agulhas invisíveis penetrando meu corpo marcam o reinício do ciclo.

A maioria passa pela experiência uma única vez. Eu não tenho tanta sorte.
Nota: Texto baseado em experiências reais do autor

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Sexo, Gastronomia e Música em Quantidade


Reparou? Pois é, quantidade. É o que a gente mais vê.
Tudo está desordenado, e o quantitativo ficou melhor que o qualitativo.

O relacionamento perfeito, agora segue o seguinte cronograma: Balada; Embriagar-se; Pegar alguém (embriagado de preferência), e Trepar. Então recomeça o ciclo: Quanto mais, melhor.

Jantar em família com comidinha da mamãe? Como, se todo mundo anda apressado, com horários loucos e diferentes, às vezes tendo somente uma hora de almoço, a qual deve usar para comer; ir ao banco; e ainda estudar para uma prova? Quem acaba resolvendo este problema é o fast-food, onde quanto mais gordura e aditivos alimentares, melhor.

‘Pseudoamericanos’, com coração de periferia e contas bancárias de magnatas, se cobrem de diamantes e casacos de pele para comporem canções cujas letras não passam de gemidos de caráter sexual; E cujas coreografias nada mais são do que “meter de cueca”; Gravam clipes e os vendem visando comprarem mais diamantes, mais peles e mais putas, para gravarem mais clipes: Quanto mais, melhor.

Para arrematar, os ‘pseudobrasileiros’ vão à ‘buatchy’; dançam Beyoncé; trepam com pessoas de quem nem sequer lembram o nome, e depois, já que sexo dá muita fome, vão comer um Cheddar McMelt com uma Coca-Cola ‘Zero’, para não engordarem, não ficarem feios e poderem ter mais chances de repetirem o ciclo: Quanto mais, melhor.

Percebem como todos se juntaram no final? Da mesma maneira que com a qualidade, pode-se relacionar sexo, gastronomia e música em quantidade.