sábado, 14 de novembro de 2009

A chuva sagrada




A chuva caía na mata ardendo.
A chuva caía, e era só esse som que se ouvia na mata.
Atrás das árvores, com seus olhos bem negros
você me via de longe e eu te olhava.
Veio um pássaro piando, piava a agonia da mata.
Foi molhado o seu canto, foi seco o seu pranto.
O pranto seco na chuva da mata.
O pranto que seca e a mata que molha.
A chuva sagrada e a fruta gogóia.
Vamos pisar descalços nas folhas molhadas
No frio das sombras
Na estrela da noite.


Porque quando te vi na sombra,
quando beijei a noite,
eu sabia bem longe,
que te queria na mata,
eu queria seu assobio,
e você queria meu pio
descalça contigo nas folhas gogóias.

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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Rainha de Copas

A coroa é feita com tranças douradas,
mas o olhar é despretensioso, sonolento

É uma mulher pequena e rechonchuda
que sorri com meiguice e fineza
trazendo no centro do peito,
um coração brilhando púrpuro
e forte como granizo

a aura de bondade e gentileza
disfarça a cólera, a impaciência, a neurose

escondem-se sob névoa, o temperamento,
a autoridade e a mania de perfeição
e ainda assim, ela inspira amor e servidão;
é a grande rainha e a dona da história

no labirinto de paredes açucaradas,
uma lagarta aguarda pacientemente
enquanto prova do toque superficial
daquela que a criou e a aprisionou
pelo medo amoroso mas imperativo
de vê-la bater as asas coloridas,
na forma que nunca assumirá

todos os animais se reúnem a sua volta
e a idolatram, pois é a mão que os alimenta
enquanto ela conta sobre histórias e milagres
que nunca serão vividas, que nunca se realizarão

e sua voz doce vai consolando as asas quebradas
e no seu abraço, cabem todas as lágrimas,
todas as unhas que tentaram, em vão,
romper seus muros e determinações

e o tempo vai passando, enquanto as flores secam
aos que dormem aquecidos, sonhando voar alto
ela aguarda o momento certo de cortar cabeças
e poupar seus amados de uma vida de desventuras
pelos caminhos que ela mesma desenhou

pois não deveria haver nada além dos muros
nada além das árvores, nada além de sonhos
e, definitivamente, nunca alguém como ela


Dani.Chinaski

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Poetada №2

Pouca grana preciso ganhar
cama pra dormir, teto pra morar, pagar minha breja no bar

pagar motel, trepar, namorar
mas por Deus, sem filhos pra criar

admirar belezas, selvagens, destemidas
mas calma, quem disse que isso é poesia?

foda-se a métrica e a rítmica
escrevo o que quero, sem me preocupar com o fim do dia

faço como na Thelema, ou como Miller dizia
cuspo na cara da arte... mijo na rua, na esquina

feliz não sou, mas um sorriso sei tirar
pois sei que engravatados, algo assim nunca poderão criar.

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terça-feira, 25 de agosto de 2009

As sombras.




Sob o luar entrecortado pelas grossas copas das árvores, ela sentia a sola de seus pés repousando sobre as folhas secas. Cada folha craquelava alto, um som surdo de folha seca perdido na escuridão da mata. Cada folha era um grito no escuro.

Acompanhada apenas pelo canto de uma ou outra ave notívaga, ela sentia o frio gelado envolverem seus braços nus, mas com um objetivo em mente, caminhava, olhando para o solo, deslizando suas mãos sobre os troncos das árvores que a encontravam pelo caminho.

E em sua longa trilha que levava todas as noites para aquele que era o palco dos seus sonhos, ela ouvia seus pés pisando em folhas, encostando em gravetos, acariciando flores. Seus pés já eram abituados à rotina de folhas, gravetos e flores mesmo não tendo grande experiência, mesmo não sendo sábia, mesmo não sabendo acreditar.

E perdida, pequena no meio do mato, ela já pensava que iria saborear as suas lágrimas , derrotada, na volta para casa. Foi quando ela a viu: vistosa, brilhante, etérea, eterna, chorosa e risonha sobre as copas das árvores. Sob o manto prateado de sua musa, ela, ainda tão garota e tão serena, sentiu grossas gotas de devoção deslizarem sobre seu rosto. Sentindo o doce sal em seus lábios, ela caminhou para mais perto do lago, onde a sua musa jogava seu manto luzidio sobre a infalível água sedosa. A garota fechou os olhos tamanho era seu brilho, e ela lampejava fortemente, ofuscando todas as esperanças, rasgando todos os poemas, sangrando qualquer coração porque ela era, enfim, o destino de todo desejo.

E quando menos podia perceber, a menina já havia seus pés envoltos pela água gelada. Ela ainda mantinha seus olhos fitados sobre a diva argêntea que reinava no céu. Ela ainda chorava. E antes que pudesse cair ao chão com o peso de suas lágrimas, ela deitou-se na relva com os pés ainda molhados e observou seus grandes sonhos, todos no céu, brilhando em cima de seu peito aberto. Sentindo a terra encharcada perder-se por entre seus dedos, ela sentia a solidez da lama, do barro que havia sido a origem de TUDO, derreter-se como verdade , esfriando em suas mãos. Ela tateava o solo como se este fosse veludo, e ela sabia, que naquele monte de concretos em que os louros moravam, naquela mundo confuso que seus olhos não haviam alcançado mas que seus ouvidos conheciam, que seda ou organza algum eram comparáveis à grandeza daquele toque sobre aquele chão.

Engoliu cada gota de seu próprio sal como se todas elas fossem uma pequena panacéia para sua vida, abençoadas por sua Salvação de Prata que sorria ao longe. Cada gota descia morna dentro de seu corpo, deslizando leve como pequenas almas, aquecendo o espírito, escorrendo a dor.

E quando já estava prestes a derramar longos soluços ao ouvir os lobos ao longe, percebeu que a doce luz de prata agora confundia-se com o clarão vermelho e intenso das tochas do bando. Eles haviam vindo buscá-la , desesperados com sua ausência , e ela , temerosa por ter de voltar à crudez cotidiana, agarrou inutilmente uma pequena folha de relva, como se esta pudesse amarrá-la às suas esperanças. Desejou ardentemente possuir uma canoa, e poder remá-la, remá-la até estar no meio do lago e banhar-se com o brilho total e intenso de sua musa crepuscular, sentir a eternidade de sua luz, a iluminação que ela trazia aos seus mais loucos sonhos. Mas, imóvel diante de tantas tochas ardentes, ela contentava-se em observar a doce salvadora em meio às estrelas, às doces lágrimas de sua heroína que eram chamadas estrelas, e que vez ou outra, quando caíam, os louros chamavam de "cometa". Ela deslizava seus pés sobre a fina borda das águas que ainda estava próxima de suas pernas, sentindo seus tornozelos molharem, esperando que as mãos do bando levassem-na para longe.

Foi quando ela sentiu um beijo terno repousar sobre sua testa, e uma voz virando-se para eles: "Vão. Eu voltarei com ela". Ele deitou-se ao lado dela, e ela, cujo coração quase serpentinava em direção à musa, de tão rápido que pulsava, engoliu a vontade de derramar o soluço que estava por vir. Ele abrandou , com sua mão quente, a gelidez de sua mão de menina , e ambos sentiam o toque da sábia terra sobre suas peles. E ele, imerso pelo encanto incontestável daquela Branca Amazona e de suas lágrimas-estrelas, apertou mais fortemente a mão da menina, ambos submersos pelo doce feitiço da paladina prateada.

Então os dois, atados pelo toque de seus dedos, embarcaram juntos numa jornada de percepção da própria pequenez, da maravilha de ser diminuto perante o infinito, do privilégio de ter a desimportância perante o Céu e a Terra. Sentiam o minúsculo pulsar de suas almas perante a vindoura aurora, e antes que a musa então partisse com seu aceno esvoaçante, ele atirou-se à tentação de dizer:

- Meu desejo era vir vê-la todas as noites.

E a menina, então, ao ouvir palavras tão gêmeas das suas, liberou todo e qualquer soluço, seu choro era o urro, o grito da noite, o desespero profundo da noite, cortando o cenário negro e inebriante da escuridão, e ele sentiu com suas mãos o grito dela, e num desespero e maravilha resolutos, ambos preferiram acalmar o pranto e apreciar os poucos segundos que restavam da epifania da divina Musa...

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sábado, 22 de agosto de 2009

A Trama de Lilith

cartas antigas envoltas em renda azul
apodrecem com o aroma das rosas
que você enviou um dia
justo você que tem medo de flores mortas
escolheu se dedicar às rosas negras

quando o meu amor por você acabou
nenhuma herança foi reivindicada
mas você desenterrou lembranças enferrujadas
na tentativa de arrancar de mim qualquer sentimento

as novas e estranhas flores que nasceram
no campo ferido e estéril do seu coração
vieram balançar suas pétalas horrendas na minha janela
arruinando a sua honra
na tentativa estúpida de cristalizar o tempo

o que se pode esperar, então, da tua estirpe
se no fundo, nós sabemos que a semeadura
nesse campo doentio fez nascer flores
cujo perfume ralo e pobre não inspirou nada
além de cobiça e vingança?

eu era sim, uma menina cheia de plumas
que viu seu tesouro ser absorvido pela terra seca
sem que uma única rosa pudesse nascer dali

eu era sim, uma menina de ouro
que foi enterrada sob açúcar e sonho
com o pretexto de uma proteção que só me tirou o ar

eu parti do seu mundo, agarrada na cauda do cometa
como balão que foge da mão do distraído
sem deixar rastro nem recado, já que não havia ninguém
para ler a minha despedida ou que a merecesse

mas tamanho foi seu desespero, tão grande foi a queda
que seu amor transformou-se rapida e inacreditavelmente
e com a raiva, vieram os pesadelos que tentam, em vão,
consolá-lo da minha ausência absoluta

surgiram as rosas negras no campo dos seus sonhos
noite após noite, sob a maldição sem trégua do meu nome
num jardim imerso em trevas, onde você espera o meu retorno
em silêncio e em segredo, na covardia habitual dos seus desejos

eu sei que você acorda no meio da noite, clamando às chuvas
para que lavem a imundice de suas intenções torpes
para que eu não descubra que foi você o tempo todo
maldizendo cada renda de lembrança, cada pétala que ficou pra trás
acreditanto no entanto, que chego de longe, como a estrela,
de longe, como o tempo
como se ainda fosse sua amada última




P.S. A poesia que você me dedicou chama-se A Brusca Poesia da Mulher Amada, de Vinícius de Morais, seu autor favorito e eu brinquei com ele no meu texto propositalmente.
O meu gosto literário se modificou com o tempo e agora leio Bukowski com mais frequencia que Vinícius. Então, talvez num próximo poema, te mande ir à merda de maneira mais direta.

Danielle Chinaski

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Ororo

meu rosto ganhou uma ruguinha nova
na curva onde o sorriso se acentua
é o tempo construindo seus sinais
pelo medo de ser esquecido

e ao lembrar da passagem do tempo
sirvo um café e lembro dos dias áureos
em que eu sonhava ser, para sempre,
uma heroína dos quadrinhos

dentre as maravilhas que já consegui fazer
voar, feito pássaro, continuou a ser sonho
mas o tempo olha pela janela e me promete
“Daremos um jeito”.


Dani.Chinaski

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A Noite.



Te vi no molhado da noite,
No negro da noite,
No escuro da noite.


Você estava no fim da rua, olhando-me de longe, as mãos tão distantes, os olhos chorando.
Na rua fria, a chuva caía calada. E eu sabia. Você ao longe, você chorando, sem derrubar uma só lágrima, mas caindo aos prantos.
Olhamo-nos juntos, juntando retalhos de nossas sombras, jogando sorrisos profundos, tentando entender o mundo.
Sua lágrima escorreu em um segundo, e eu corri em sua direção, com toda e sem nenhuma pressa, eu corria pisando nas poças, sujando sapatos e quebrando saltos, eu corri com os sonhos mais altos, eu corri para cair nos seus braços.
E em um nada construímos o tudo, porque agora o infinito importava.

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