terça-feira, 1 de junho de 2010

A pérfida arte da auto-sabotagem.


Não tenho, ultimamente, a menor inspiração para escrever qualquer texto narrativo ou com um pingo de tom poético. Forcei-me, alguns dias, a encontrar um tema que fosse de valia, mas todos só me traziam enfado. Não consegui, simplesmente, encontrar tema algum, e fiquei entediada.
Passaram-se os dias, andei refletindo sobre a constante cobrança que fazemos de nós mesmos, seja a respeito de coisas tão rotineiras como um texto de um blog, como em relação a eventos realmente importantes. O assunto murmurava em minha cabeça, mas sem alguma nitidez específica. Apenas sussurrando em algum canto.

Hoje, após assistir a Vicky Cristina Barcelona pela segunda vez, pude vê-lo com um olhar menos curioso e mais crítico, e enfim refletir sobre alguns temas que eu ainda não havia percebido que esse filme aborda. E aquele assunto que até então apenas cochichava em minha mente pode adquirir um timbre agora mais audível : tudo é a respeito da pérfida arte da auto-sabotagem.

Sim, pérfida. É a palavra perfeita. Se tiverem sugestões para alguma melhor, por favor, digam-me. Fico aterrorizada com a PÉRFIDA capacidade que temos de destruir nossa própria auto-estima e irritar a nós próprios com pequenas angústias todos os dias. Você sabe que é um grão-mestre da arte da auto-sabotagem quando a única pessoa que realmente consegue estragar o seu dia é você mesmo. E é o que todos nós fazemos, uma vez ou outra.

A auto-sabotagem se faz presente não apenas com as cobranças excessivas que fazemos em ser o mais rico,o mais bem sucedido, o mais culto, o mais sexy, o mais popular. Mas também porque simplesmente não percebemos que ser rico, bem sucedido, culto, sexy ou popular simplesmente não é, e nunca será, tudo na vida. A felicidade não reside nisso. Ela reside em algo que ninguém ainda soube, mas definitivamente, não em conquistas. Se conquistas construíssem felicidade, não veríamos tantos bem afortunados, belos, cultos e interessantes cometendo suicídio , usando drogas, reclamando de migalhas.

Pois bem, vamos ao filme. A maioria dos que assistem gostam muito de debater a respeito de Maria Elena ou Cristina, que são, para muitos, as personagens mais intrigantes da trama. À primeira vez que o vi, já não consegui ver realmente tanta cor na interação das duas, mas nessa segunda vez pude concluir realmente que a personagem que sela todo o filme, e que tem mais teor dramático é, sem dúvidas, Vicky. Vicky é a garota que sempre planejou sua vida para que esta fosse a mais perfeita possível, e ao ter encontrado o homem perfeito e a carreira perfeita, percebeu que enfim, tinha a vida dos sonhos. Porém, esse sonho se desestabilizou quando ela finalmente encontra Juan Antonio, o pintor boêmio, interessante, que tinha todo um novo mundo de possibilidades que ela, amante ferrenha das artes, estava louca para conhecer. A partir de então, ela passa a nutrir uma paixonite pueril por Juan Antonio, enquanto o noivo se esforça para agradá-la. (Aliás, Vicky sofre daquela tolice de achar que só porque alguém é atraente e tem o mesmo padrão cultural que você, essa pessoa já a sua alma gêmea. ) Quando ela enfim tenta passar uma tarde por Juan Antonio, num incidente desagradável que envolve Maria Elena tentando atirar nos dois, ela percebe a loucura que está fazendo. Entretanto, continua alimentando o assunto em sua memória.

Vicky é o símbolo da auto-sabotagem. Amarrou-se durante toda vida à obrigação de ter a vida perfeita, o homem ideal, a carreira fantástica. Mas Vicky, por ter tanta obsessão em ser mais feliz, foi a que mais sofreu ao conhecer Juan Antonio. Tudo porque o mundo artístico de Juan, e os clichês sedutores que ele dizia, pareciam ser para Vicky mais "felicidade" do que aquilo que ela estava vivendo no momento. De repente, aquela era a vida perfeita - a vida despreocupada, as tardes de verão em Barcelona, a liberdade cultural e comportamental européia. Vicky alimentava esses sonhos adolescentes enquanto seu noivo proporcionava-lhe afeto e uma vida confortável. Mas aquilo não era mais felicidade. Ela queria ter uma vida gritantemente deslumbrante. Como se isso, afinal, fosse necessário!

Qual o problema em não ser , realmente, a mais feliz das criaturas? Ter uma vida emocionante, cheia de aventuras e loucuras, dá um trabalho insuportável. Você precisa acordar todos os dias com idéias mirabolantes que dêem "todo um colorido" ao seu dia , ou então conhecer alguém interessante, comer um prato exótico, viajar a um lugar absurdo, pular de pára-quedas, transar com alguém estonteante e todas essas imagens que Kodak, Coca-Cola, Marie Claire e Playboy construíram para fazer com que você, um dia, queira se matar se jogando da ponte mais próxima. Imaginem o quão intragável deve ser conviver com alguém como Juan Antonio: você tem de ser a mulher fatal, a diva estonteante, a louca endiabrada, a poeta dos sonhos, gritar e ter crises intempestivas de humor, e estar sempre com uma idéia extravagante na cabeça, porque senão ele pode se entendiar. Isso, para mim, é tortura.

Admitir que é possível - e perfeitamente normal - não ter a vida mais extraordinária da Terra nos tira um grande peso da consciência. Quando você aceita que pode sim, reclamar da sua vida, e que seus dias podem sim, ser uma constante reticência com um ou outro ponto de exclamação, você pára de planejar eventos e festinhas insanas, cansa de idealizar e consegue, finalmente, desfrutar da calmaria que é ter uma vida NORMAL. Ninguém, absolutamente ninguém, tem a obrigação de ser incrivelmente feliz no mundo. Você pode acordar , colocar os pés nos seus chinelos, e murmurar um salutar "Que ódio que eu tenho dessa rotina" que está tudo bem. Ninguém vai te culpar por isso. Você não precisa se culpar por isso. Com exceção de situações realmente graves e extremas que você realmente precisa solucionar, o resto pode ser vivido de forma passiva e leve. Infelizmente, a sociedade, a cultura, a mídia e você mesmo exigem que você tenha uma vida incrível para ser incrível.

Não, não. Você pode ser incrível sendo você mesmo. Tomando aquela xícara de café meio frio enquanto assiste seriados antigos e manda às favas a ditadura da felicidade, você é a mais feliz das criaturas.

5 comentários:

Danielle Chinaski disse...

Fantástico, Paulets.
Bjao

Anônimo disse...

Paulinha, falou e disse.
Eu me pego me auto-sabotando várias vezes.
Vc, como sempre, fantástica nas palavras.

Beijos e abraços
Daniel

Felipe Odin disse...

Mais um texto excepcional da Paula.

Lara disse...

Arrasou Polete,
Acho que é a melhor crítica que li de Vick Cristina Barcelona.

Marianna Portela disse...

Reli. Entendi. Concordei. Mudei. Acredita?